Estreia nas longas-metragens da realizadora espanhola Lucía Aleñar Iglesias, Forastera circula pelos terrenos da identidade e do coming-of-age, com as marcas do luto de uma família a servirem de engrenagem para um drama intrigante, bem conduzido pela jovem Zoe Stein.
Ela é Catalina, que, juntamente com a irmã mais nova, Eva, interpretada por Martina García, passa o verão na casa dos avós, junto à praia, em Maiorca. Rapidamente percebemos, quando a jovem Catalina finge ser a avó, com quem partilha o mesmo nome, numa conversa telefónica com a mãe, que há muitas coisas por dizer, ou nos silêncios, a afetarem esta família. Isso torna-se ainda mais acentuado quando a avó da adolescente morre subitamente e é Catalina quem a encontra, prostrada nas escadas da habitação. A partir daí, o filme ganha uma forma espectral, no sentido em que a jovem começa a incorporar muitos dos elementos que estavam associados à avó, particularmente quando veste um vestido que a faz transfigurar-se numa figura fisicamente ausente, mas muito presente na atmosfera da mansão e das vidas que por lá habitam.
Pepa, a mãe de Catalina, interpretada por Núria Prims, vem rapidamente de Madrid para organizar o funeral, mas a relação tensa que mantém com o pai impede-a de assumir a força do amparo familiar, principalmente quando “obriga” o pai a ter alguém que tome conta dele, na figura de uma mulher da limpeza. É nessa relação precária entre figuras em luto que a jovem Catalina acaba por se aproximar de Tomeu, o avô, e por o acompanhar no luto, começando progressivamente, através dos gestos e dos objetos que parecem carregar a memória da avó falecida, a afirmar ao seu jeito uma identidade que é, na realidade, também a da avó.
Num jogo de substituição com tudo o que de problemático poderia advir, Lucía Aleñar Iglesias vai jogando com as expectativas do espectador na forma como conduz a relação entre avô e neta, e como a jovem irmã e a mãe se integram nesses meandros. Ao de cima, levantam-se assim questões como a transmissão involuntária de papéis dentro da família, o peso das figuras ausentes e a forma como o luto pode reorganizar as hierarquias afetivas.
É que Catalina não se limita a recordar a avó, mas começa a ocupar um espaço que a morte deixou vazio, tornando-se uma presença de conforto, talvez de uma estranha continuidade quando seria necessário antes um exercício de rutura.
Por isso, esta é uma estreia segura e de grande sensibilidade, onde crescer e ganhar maturidade prova efetivamente que herdamos muito mais do que nomes, roupas ou parecenças físicas. Sem nunca se assumir como filme de fantasmas, mas antes como um filme sobre uma identidade em trânsito por entre tensões familiares, Forastera merece que a sua cineasta seja acompanhada no futuro. E principalmente pela forma cuidada como, por entre o melodrama, incute algo de thriller e de mistério através de uma direção de fotografia extremamente cuidada, da escolha de ângulos interessantes que também jogam com essa ambiguidade e ainda da música, transformando o filme em algo mais do que um drama de luto e crescimento pessoal.

