Indicado ao Oscar e ao Urso de Ouro por “O Que É Isso, Companheiro?”, Bruno Barreto esteve, desde 2013, quando arrastou 1,2 milhão de pagantes para rir com “Crô – O Filme”, debruçado sobre a teledramaturgia, em séries e minisséries, entre elas “The American Guest”, candidata a tornar-se um dos projetos de culto da TV em 2021.

A ausência que o responsável por “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (um fenómeno popular, com 10,7 milhões de bilhetes vendidos, na segunda metade dos anos 1970) manteve do grande ecrã, por conta dos seus compromissos com a televisão, chega ao fim agora, com as filmagens de “Vovó Ninja”.
Já em filmagens na cidade de Santana de Parnaíba, interior de São Paulo, a longa-metragem marca uma nova parceria entre o cineasta carioca e a atriz Glória Pires, com quem trabalhou em “Flores Raras”, um íman de elogios na Berlinale de 2013. Além de Glória, a produção conta com os atores Angelo Vital, Luiza Salles e Michel Felberg num papel de destaque. Cleo, filha de Glória Pires na vida real, também estará em cena, esbanjando o talento que depura desde “Benjamin” (2003) ao lado da mãe.
A narrativa de Bruno começa com a avó Arlete (papel da aclamada atriz brasileira) reclusa na sua fazenda, onde leva um estilo de vida zen. Ela terá que receber os netos Davi (Angelo Vital), Elis (Luiza Salles) e João (Michel Felberg) na sua casa, depois de muito tempo sem vê-los, por rusgas com a sua filhota. Arlete não tem muita intimidade nem jeito para lidar com as crianças, que estão insatisfeitas de estarem num sítio sem internet, cheio de regras e com tarefas domésticas. Após uma tentativa de roubo no local, Davi descobre que a avó tem habilidades fora do comum e, junto com os irmãos, faz tudo para descobrir qual é o seu segredo.
Na entrevista a seguir, Bruno – que já trabalhou com astros internacionais como Marcello Mastroianni, Amy Irving, Dennis Hopper, Candice Bergen, Andy Garcia, Jennifer Connelly, Alan Arkin, Gwyneth Paltrow e Mike Myers – explica ao C7nema o desafio de encarar a cartilha dos filmes para a família.
Que Brasil mora na fazenda de Arlete?
Um Brasil dos sentimentos à flor da pele, dos afetos, para além da tão discutida cordialidade do nosso povo. Eu estou a falar de afeto no filme numa essência melodramática que vai fazer muita gente chorar. A chave aqui é a emoção. E a emoção reprimida vai correr como uma enchente. No filme, a Elis vai bater de frente com a avó algumas vezes, mas elas vão ter uma interseção de empatia quando a menina, ligada à música, canta Noel Rosa. A emoção é uma chave nos meus filmes, mas sem manipulações.
A sua primeira longa-metragem, “Tati, a Garota”, retratava a relação de uma miúda com a mãe. Mas isso foi em 1973, antes de várias aventuras pessoais suas, inclusive a experiência de ser avô. O que é voltar a esse universo das crianças?
Esta é a história sobre como três crianças reaproximam a mãe da avó. Não é um filme infantil, apesar do que o título pode sugerir. “Tati” já não era um filme de crianças e, sim, um filme quase neorrealista sobre uma criança. Aqui, a representação da avó é diferente daquela imagem clássica, da figura que deseduca os netos. A personagem da Glória aqui é uma pessoa muito disciplinada. Os pais, agora, não são mais aquelas figuras que disciplinam. A filha aqui é o oposto da mãe, vivida por Glória. Esta vive uma devota do kung fu, epassou um ano na China. A Glória deu muitas ideias para o roteiro. Ela quase merecia um crédito de argumentista. É uma atriz imensa, uma das mais talentosas do mundo, que não deixa nada a desejar ao trabalho de Marília Pêra ou de Fernanda Montenegro.
Com raras exceções, como “O Que É Isso, Companheiro?”, a sua obra sempre se debruça sobre representações do feminino, com mulheres emancipadas, às voltas com as suas escolhas. De que forma Arlete articula-se com essas mulheres?
Não é por acaso que dediquei o “Bossa Nova” (um dos filmes mais populares de Bruno, lançada em 2000) ao Truffaut, o meu cineasta predileto: porque nele a mulher era sempre a razão de tudo. Preservei isso. Das mulheres brotam o mistério, a beleza e a magia.
O que existe de mágico em “Vovó Ninja”?
Este filme é um casamento de Jacques Tati com “O Jardim Secreto”, de Agnieszka Holland. Há, aliás, uma locação no filme que batizamos em referência a esse filme dela, que adoro
Depois de tantos espetáculos cinematográficos para o grande ecrã, de sucesso, como você se adaptou à cultura do streaming, depois de uma experiência recorrente com a TV nos últimos dez anos?
O trabalho mais recente que finalizei, “The American Guest”, uma minissérie em quatro episódios, que será lançada pela HBO – a trama narra a viagem do ex-presidente americano Teddy Roosevelt, interpretado por Aidan Quinn, ao lado do oficial do exército brasileiro Cândido Rondon, retratado por Chico Diaz, em uma busca para explorar regiões desconhecidas e se confrontar com habitantes indígenas da Amazónia brasileira –, foi rodado como se fosse uma longa-metragem de quatro horas. Não deixa nada a desejar a qualquer filme. Teve a sua música gravada em Budapeste, com um coro de 60 pessoas. É um espetáculo visual grande. É óbvio que lançar um filme no cinema, numa tela grande, é uma experiência que não tem preço. Mas, hoje, as pessoas consomem dramaturgia online em TVs cada vez maiores e melhores.
Todo o seu cinema, desde “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), sempre teve um esmero visual de muito requinte. Já que falamos dessa questão de suporte, de streaming ou grande ecrã, como é a concepção visual de “Vovó Ninja”?
Este é um dos meus filmes mais bem cuidados do ponto de vista visual. Chamei o José Roberto Eliezer, o Zé Bob (de “O Cheiro do Ralo”) para fotografar. Fiz “Caixa Dois” com ele. E eu usei “Atos de Amor”, o “Carried Away”, como referência visual da atmosfera. Estruturamos um filme de atmosfera, onde o que não é dito é tão importante quanto o que se fala.

