Fala-se “papagaio de pirata” no Brasil para designar pessoas viciadas em flashes mediáticos, ou seja, aqueles tipos que arranjam formas de aparecer em filmagens de televisão sem serem convidados, durante coberturas jornalísticas de acontecimentos estranhos ou mesmo tragédias [em Portugal há o caso famoso do “Emplastro”, particularmente no caso do futebol]. Quando morre um famoso, o funeral acaba por contar com a presença de figuras sem qualquer ligação ao falecido, ansiosas pelo clique de um fotojornalista ou pela tomada de uma emissora mais sensacionalista. Tunico (papel interpretado por Gero Camilo, no segundo dos seis concorrentes ao troféu Kikito de melhor longa-metragem de ficção de 2025) encaixa-se nessa “doença” moral. Chamam-lhe “subcelebridade”, mas ele não liga. Considera-se famoso. O problema é que essa fama exige manutenção. Ele precisa fazer-se ver, por vezes recorrendo a caminhos eticamente tortuosos. O bairro do Rio de Janeiro onde este cearense reside, Curicica, na Zona Oeste da cidade, é um lugar sem praia, sem atrativos turísticos, conhecido sobretudo pela proximidade com os Estúdios Globo, onde a TV que domina as Américas produz as suas telenovelas. Nesse perímetro, Tunico é uma lenda. O problema — um deles — na sua vida é que está doente.

“Papagaios” começa com ele doente, a tentar comprar um medicamento para o qual não tem receita médica. Tosa… muito… sobretudo quando pressionado. A chegada de um rapaz ao seu caminho, Beto (Ruan Aguiar), vai desestruturar a sua rotina e reorganizar o que sobrar, especialmente os restos dos seus sonhos. Este é o esqueleto de Papagaios, uma comédia aparente que se transforma num thriller efervescente, sob a realização de Douglas Soares (de Contos da Maré). O Rio de onde o realizador provém não é o do cartão-postal convencional da metrópole carioca, longe de ser Copacabana. A sua primeira longa de ficção transpira essa vivência, o que legitima o seu retrato de um ponto pouco observado numa metrópole desejada por todo o planeta. O mundo de Tunico é um feudo que os senhores do Rio ignoram. Por isso, quando ele brilha na pequena tela, o seu quilate sobe e os seus fãs apegam-se ao seu nome, mesmo que eles próprios sejam cães danados.

O diretor de fotografia Guilherme Tostes enquadra este Rio sem cores exuberantes, com tons temperados pela contenção térmica. A casa de Tunico, adornada com glórias tão valiosas quanto bijuterias baratas, acumuladas ao longo de anos dedicados às câmaras televisivas, é um tesouro para qualquer bom profissional de cenografia com a argúcia de Elsa Romero, responsável por este ofício no filme. Elsa realiza-o com esplendor. Cada detalhe daquele lar exala o aroma da carência. Talvez por isso Beto seja tão bem-vindo ali. Ele preenche vazios.

O rapaz salva Tunico de uma surra. Depois de salvo, este não esconde que acha o jovem bonito, mas prefere tratá-lo pela alcunha filial de Meu moleque, com um toque de paternalismo naquele vínculo. A canção “Naquela Mesa”, hino romântico da paternidade na música brasileira, entoada pela voz de Nelson Gonçalves (1919-1998), reforça o desejo de paternidade que Tunico decide assumir, ao ensinar a Beto aquilo que sabe sobre ser “papagaio”. Ensina o que pode, com o objetivo de receber o que necessita: apoio para identificar locais onde a mídia vá filmar. É essencial ter esse auxílio numa realidade que parece perdida no tempo. Não se veem Ubers, nem iPhones, nem portáteis de última geração. Tampouco se fala no boom das redes sociais. O guião parece remeter a um Brasil que ainda dependia dos noticiários, sobretudo os mais sensacionalistas, para se informar. Uma das notícias que circulam pelas emissoras envolve uma homenagem ao cantor Leo Jaime, rouxinol do B-Rock dos anos 80. Ele interpreta-se a si próprio no filme, com brilho. Há momentos em que basta esbanjar o carisma que possui, enquanto (numa analogia ao voleibol) Ruan levanta e Gero remata, com mestria, marcando pontos a favor da arte da interpretação — e de Gramado, que começou com pleno vigor. Há também momentos em que Jaime assume o monólogo. Os seus diálogos são pesados, ásperos, mas ele cumpre com o papel.

A sua figura faísca na montagem sinuosa (assinada por Allan Ribeiro), tal como Jerry Lewis (1926-2017) faiscava em O Rei da Comédia (1982), de Martin Scorsese, com o qual Papagaios dialoga abertamente. Ali, um aspirante a comediante de sucesso (De Niro) enlouquecia na presença de um titã do riso, tentando aprender a ser como ele. Na produção brasileira da Glaz e Meus Russos, realizada por Douglas Soares, a loucura tem múltiplas vertentes, ao contrário do que vemos em Scorsese, mas em Beto a loucura torna-se mais perigosa… e letal. Tunico também parece louco (e assombroso), pois há momentos de desligar-se da razão. Chegar perto de Leo Jaime pode ser o trampolim para o sucesso que ele anseia. Nesse contexto, o “papagaio” transforma-se numa ave de rapina. Para estar nesse lugar — no paralelismo entre opressor e oprimido que Nietzsche falou na Filosofia —, todo o abutre precisa de um cordeiro dócil, pois na mansidão alheia as nossas garras parecem mais afiadas. Só que a mansidão de Beto é aparente. Que o diga Clau, o motorista de Leo Jaime, interpretado (e muito bem) pelo encenador teatral Ernesto Piccolo, que cai na sua sedução neste frenético suspense cómico de tons “queer”, onde os descalabros fazem parte de um Rio de Janeiro que continua belo… na nossa nostalgia.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
papagaios-devassa-um-rio-de-janeiro-carente-viciado-em-flashesA sua figura faísca na montagem sinuosa (assinada por Allan Ribeiro), tal como Jerry Lewis (1926-2017) faiscava em O Rei da Comédia (1982), de Martin Scorsese, com o qual Papagaios dialoga abertamente.