macaBRo Festival: Carlos Primati, a bíblia brasileira dos Quintos dos Infernos

(Fotos: Divulgação)

Jornalista, crítico, editor, tradutor, pesquisador de cinema fantástico e enciclopédia humana quando o assunto é a representação audiovisual do Além, Carlos Primati é um dos curadores da mostra “macabro”, festival brasileiro que está a decorrer online, na plataforma Darkflix, até 23 de novembro.

Organizador da obra de José Mojica Marins (1936-2020), o Zé do Caixão, publicada no livro “Maldito”, de André Barcinski e Ivan Finotti, Primati trabalhou em parceria com o produtor Breno Lira Gomes para levantar os títulos da retrospectiva de horror brasileiro que exibe via streaming agora, sob o selo do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Dela fazem parte iguarias como “Mal Nosso”, agendado para o dia 15. Sucesso planetário, filme de culto por fãs nas mais variadas línguas, este thriller diabólico é sobre a participação do Diabo na negociação de um assassinato. Nesta quarta, às 18h (21h em Portugal), a pedida é “A Sombra do Pai”, de Gabriela Amaral Almeida, seguido por “Terra e Luz”, de Renné França. Nesta sexta será exibido “Morto Não Fala”, de Dennison Ramalho, thriller sobrenatural coalhado de elogios na sua passagem pelo BFI – London Film Festival.

 Na entrevista a seguir, Primati explica ao C7nema as dinâmicas do horror em solo latino e dá suas impressões sobre o terror lusitano.

O que mais justifica o preconceito contra o terror como gênero na América Latina?

Não acho que o terror sofra preconceito na América Latina, muito pelo contrário: produçõesnorte-americanas são muito bem recebidas em países latinos e os números de bilheteira confirmam isso de maneira massificante, por exemplo, com os dois “It” ou a saga “The Conjuring”. Inclusive, uma produção recente com temática católica, “A freira” (“The Nun”), teve uma bilheteira muito maior, a nível internacional, do que doméstico, colocando-a entre as maiores da década no género do horror, com grande participação de países latinos, de formação cristã no catolicismo. Quanto aos espectadores latinos não consumirem devidamente produções locais, a única resposta plausível que me ocorre é que parte do público só é capaz de assimilar o modelo hollywoodiano, de horror mais comercial, formulaico e previsível. E mesmo quando alguns realizadores de países latinos se aventuram nesse formato comercial, existe uma resistência – que não sei dizer se é maioria, mas existe – em relação a esses filmes por uma postura de submissão e suposta inferioridade artística, técnica e mesmo de representatividade. Obviamente é uma situação triste, lamentável. Mas não acho que seja predominante, tendo em vista que nomes como Guillermo del Toro, Alejandro Amenábar, Álex de la Iglesia e alguns mais independentes, inclusive os brasileiros Dennison Ramalho, Gabriela Amaral Almeida, Rodrigo Aragão e Samuel Galli, conquistaram o mercado estrangeiro com os seus filmes. O horror não americano, principalmente europeu e latino, é bastante autoral e singular, o que representa um certo desafio a plateias mais convencionais, que pensam conhecer todos os caminhos que o género é capaz de percorrer, e acabam sendo pegas desprevenidas com essas narrativas originais e imprevisíveis.

De que modo o filão terror do Brasil dialoga com o cinema de horror do continente?

O Brasil é o país culturalmente mais isolado do continente, por ser o único que não fala espanhol. Por conta disso, os filmes circulam menos entre os países, por necessitar de legendas ou dublagem [dobragem], mas ainda assim acontecem algumas coproduções – por exemplo, “Mate-me por favor”, de Anita Rocha da Silveira, e “Vergel”, de Kris Niklison, que são colaborações entre Brasil e Argentina, e “Caleuche, o chamado do mar”, de Jorge Olguín, feito em parceria com o Chile.

A dimensão quase continental do Brasil permite que diferentes regiões dialoguem com outros países sul-americanos. Assim, nós temos ao sul histórias de bruxas e lobisomem que aproximam de Argentina e Uruguai, enquanto na região norte temos lendas e crendices da Floresta Amazónica que dialogam com países fronteiriços, em filmes fantásticos sobre o mundo espiritual, como “Los silencios”, de Beatriz Seigner. Alguns filmes de horror que retratam mazelas sociais e conflitos de classes típicos de países do chamado Terceiro Mundo também criam o sentimento de empatia e identificação entre os públicos, se compararmos ao horror hollywoodiano, no qual a classe média burguesa é a quase sempre protagonista.

Há espaço para o terror no documentário brasileiro?

Certamente um país com tanta desigualdade social, com a brutalidade policial consolidada como uma força institucional apoiada por parte da população, e com casos escabrosos e cruéis de crimes de morte, há material de sobra para dialogar com o formato do documentário. Existem as questões de direitos de imagem e da necessidade de saber dosar o real com a ficção de maneira em que o lado do entretenimento não banalize e nem desrespeite os factos, que em tese seriam dramáticos e horríveis. Mas há caminho para isso, inclusive como mostra o filme “Branco sai, preto fica”, de Adirley Queirós, que mescla documentário com ficção científica. Enquanto isso, filmes de ficção de horror abordam problemas quotidianos como corrupção e conflito de classes (“O rastro”, “O nó do diabo”, “Dente por dente”) ou levam às telas crimes famosos que chocaram a opinião pública (os irmãos necrófilos de Nova Friburgo ou o assassinato do casal von Richthofen, por exemplo). No passado, o dramático incêndio do edifício Joelma, no centro da cidade de São Paulo, foi reencenado no filme “Joelma, 23º andar”, de 1979, no qual foram usadas cenas reais do incêndio com pessoas atirando-se desesperadamente para a morte certa. É uma obra de doutrina Espírita, adaptada de um livro psicografado pelo médium Chico Xavier, mas o resultado final é um autêntico filme de terror, capaz de incomodar e provocar pesadelos.

Qual seria o filme de terror estrangeiro mais interessante entre os lançamentos de 2020, em termos de originalidade?

Por conta da pandemia, o último filme que vi no cinema foi “Gretel & Hansel”, de Osgood Perkins, um diretor que acompanho das obras anteriores e que me interessa por ser original, que não busca a fórmula comercial mais fácil e previsível. Nas plataformas de streaming, vi “Relic”, de Natalie Erika James, que me interessa por todo o exercício narrativo, o simbolismo e a carga psicológica. Mas as minhas atenções voltam-se mais à produção brasileira, que é intensa, e aos filmes de festivais, onde encontramos o cinema mais inventivo. Nesse sentido, a grande sensação do ano para mim foi “Fried Barry”, de Ryan Kruger, um filme sul-africano de atmosfera lisérgica e ritmo alucinante, misturando ficção científica, horror e viagem de ácido. Por outro lado, o isolamento permitiu-me acompanhar de maneira privilegiada o surgimento da Beatriz Saldanha, a minha esposa, como cineasta. Ela também é crítica e pesquisadora, inclusive tendo um artigo sobre diretoras brasileiras de filmes de horror publicado no livro “Mulheres atrás das câmeras”, mas iniciou -se como realizadora com a curta “Jérôme: um conto de Natal”, feito para o concurso Fantaspoa at Home e estrelado pelo nosso gato, que foi muito elogiado e selecionado para a “Antologia da pandemia”. Em seguida, fez o curta experimental “Do pó ao pó”, exibido no CineBH. A minha participação em ambos foi morrer, o que não exigiu muito como atuação.

Por que existe tanto pudor em relação ao “jump scare“?

É uma visão bastante viciada e equivocada que sugere que um filme com ‘jump scare’ é necessariamente precário em termos narrativos ou de conteúdo, um pensamento elitista que busca afastar o horror ‘artístico’ do entretenimento barato e que – segundo essa visão – seria até mesmo desonesto com o público. No geral, é um preconceito bobo e vazio, pois alguns filmes elogiados por supostamente não apelar ao recurso do ‘jump scare’, na verdade usam disso em uma ou outra cena, como por exemplo “A bruxa” (2016), com o próprio diretor Robert Eggers chamando a atenção para isso em entrevistas. Resumindo, não há problema algum nos ‘jump scare’; é um dispositivo narrativo como qualquer outro que, quando bem utilizado, pode render momentos marcantes no filme, sendo que um dos grandes artesãos desse estilo é o James Wan.


O que se pode dizer do terror português?

O primeiro filme de horror português que lembro de ter visto foi “I’ll See You in My Dreams” (2003), de Miguel Ángel Vivas, um curta de zombies muito divertido e extremamente bem feita. Em seguida assisti como jurado de um festival à longa-metragem “O barão” (2011), de Edgar Pêra. Não sou um profundo conhecedor do horror português, uma lacuna que pretendo preencher, pois interessa-me demais o cinema internacional fora dos países óbvios. Mas, como curador, pude conhecer algumas obras e inclusive selecioná-las para festivais e mostras. Gosto bastante de “A floresta das almas perdidas” (2017), de José Pedro Lopes, que exibi numa mostra em Goiânia, e que lida de maneira bastante original com um tema delicado, sobre uma floresta aonde as pessoas vão para se suicidar. O final é impactante e imprevisível. Mais recentemente teve o “Inner Ghosts”, dirigido por Paulo Leite no Rio Fantastik Festival, um filme de assombração coproduzido por Portugal e Brasil, falado em inglês, e que foi lançado este ano em Portugal como “Fantasmas interiores”. No geral, espero conhecer filmes portugueses originais e que tragam uma contribuição da sua cultura para o género do horror.

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