Um Crime Em Comum: Um estudo nos aparelhos ideológicos da exclusão

(Fotos: Divulgação)

Poderosa releitura argentina do chamado “thriller social”, um filão audiovisual indispensável à representação da realidade latino-americana, “Um Crime Em Comum” (Un Crimen Común), de Francisco Márquez, é a mais politizada ficção no atual circuito exibidor brasileiro, que continua funcionando sob todos os protocolos de segurança.

O desempenho de Elisa Carricajo, no papel da professora de sociologia Cecília, interpretada com um ferramental cénico espantoso, é, em si, um chamariz para a longa-metragem, centrada nos desajustes inerentes à violência urbana. Na sala de aula, Cecilia cita o porta-voz do marxismo estrutural, Louis Althusser (1918-1990), para conseguir analisar os aparelhos ideológicos do estado, neste novo trabalho do realizador de “La Larga Noche de Francisco Sanctis” (2016), realizado em duo com Andrea Testa. A sua rotina muda após uma noite chuvosa, quando Kevin (Eliot Otazo), o filho da sua empregada doméstica – Nebe, vivida por Mecha Martinez – bate à sua porta, insistentemente, mas Cecília fica com medo de deixá-lo entrar. No dia seguinte, o jovem é encontrado morto num rio. A vizinhança de Kevin, de uma classe pobre, suspeita que a polícia tenha perseguido o adolescente, pois essa é uma prática corrente na região. Assombrada pela hipótese de que o rapaz tenha procurado ajuda na sua casa, Cecília embarca num surto paranóico que espatifa a sua paz, tudo às vésperas do aniversário do seu rebento. Um aniversário a ser comemorado num parque de diversões, onde ocorre uma sequência climática de um nível de adrenalina fervente.

Na entrevista a seguir, Francisco Márquez fala ao C7nema sobre as reflexões sociológicas que nortearam o seu olhar em “Un Crimen Común”, exibido na Berlinale 2020.

Surpreende a maneira como uma narrativa tão bem calçada na sociologia consegue travar um diálogo direto com as narrativas de género, sobretudo o suspense, sem perder nunca a sua reflexão política e social. Como encontrar esse equilíbrio?

O roteiro tem a ver com questões reais e com a perceção de que a polícia é, sim, um agente institucional de disciplina social, mas que é formado por pessoas tão jovens como aquelas que reprime. Em “La larga noche de Francisco Sanctis” (2016), tentamos um diálogo com o cinema noir. Aqui, em “Um Crime Em Comum”, dialogamos com o thriller, mas também com os filmes de terror, criando uma dimensão metafísica de assombro. Cada filme precisa encontrar a sua própria forma. Nessa busca, os filmes exigem-nos uma poética própria. As narrativas de género menos interessantes são aquelas que apostam numa forma pré-existentes e fazem dela o seu ponto de observação de mundo. Aqui, as problemáticas sociais levam-nos a uma poética.

Numa certa medida, “La larga noche de Francisco Sanctis” e “Um Crime Em Comum” seguem uma linha autoral no estudo da solidariedade. No primeiro, as pessoas precisavam articular-se para resistir. Neste novo filme, em vez da articulação conjunta, há a negligência, pois alguém escolhe silenciar. Qual é a dinâmica autoral da solidariedade aqui?

Entre o tempo narrativo de um filme e outro, há a perceção de uma ditadura, que furou o tecido social da Argentina. O primeiro filme reportava-se ao período ditatorial, onde não era possível verbalizar as inquietações. “Um Crime Em Comum” fala do saldo desse silêncio. E é curioso entendermos essa mudança da história a partir de uma socióloga e professora, ou seja, alguém cuja profissão é ligada à palavra. A primeira coisa que rui aqui é o seu discurso. O mundo de Cecília desarma-se e desintegra-se, a começar pelo discurso social.

 E como traduzir essa desestruturação na forma?

Conforme os espaços vão-se desestruturando, inclusive o espaço interno dela, a engenharia de som vai mudando, pois é preciso saber escutar esse universo à volta dela.

O que este filme aponta da atual realidade do cinema argentino e da sua diversidade?

Na Argentina, poucas distribuidoras, ligadas ao cinema hegemónico americano, dominam 91% do circuito e não existem políticas públicas de exibição. Mas, curiosamente, foram as políticas públicas de Estado, para a produção, que permitiram o advento dessa diversidade, realmente rica, de que você fala. Políticas que hoje estão sendo desmontadas, assim como vocês também estão a viver no Brasil, na carne.

Existe, nesta diversidade latino-americana, um certo ranço histórico em relação ao uso das narrativas documentais como um legitimador – inclusive, e gravemente, de qualidade – por conta de uma certa dimensão sociológica da arte. Mas o seu “Um Crime Em Comum” é feliz em ir além desse garrote documental, apostando na força dos filmes de género. Como foi encarar essa operação?

A dimensão documental de um filme não precisa ser uma relação especular. Pode haver um encontro dos procedimentos do documentário com algo que vem, por exemplo, do terror, no que Cecília passa a experimentar. Mas há um certo momento em que Elisa (Carricajo, a estrela da longa) encontra com Mecha Martinez, uma dirigente de movimento social, na vida real, que não é atriz profissional, mas atua ali (vivendo a mãe do rapaz desaparecido). Esses momentos, delas juntas, são documentais de alguma forma.   

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