Ana de Dia foi o filme mais críptico da Festa do Cinema Espanhol
Que fariam se um dia descobrissem alguém idêntico a vocês, cuja presença ninguém estranhasse, e que de repente tomasse o vosso lugar? Este é o princípio que encantou a jovem cineasta espanhola Andrea Jaurrieta, a qual escreveu, produziu e realizou Ana de Dia, a sua primeira longa-metragem, que nasceu de uma piada mas que segue a linhagem das suas curtas-metragens anteriores em que “as protagonistas não se atreviam a enfrentar-se a si mesmas“. Em Ana de Dia, que esteve nomeado ao Goya de melhor realizador em estreia, a(s) nossa(s) protagonista(s) confronta(m)-se através da “desculpa de uma ‘dupla’” para atingir a liberdade.
Tudo começa com Ana a ser entrevistada para um emprego. À medida que vai respondendo a questões cada vez mais pessoais, um sentimento em nós cresce de que ela não está a ser de todo verdadeira, não porque esteja verdadeiramente a mentir, mas porque efetivamente não tem a resposta completa e certa para as questões que lhe fazem. Afinal, quem é ela?
“O filme é todo ele uma viagem de descoberta de si mesma“, explicou a cineasta ao C7nema numa entrevista hoje (28/10), acrescentando que a ideia nesse inicio, sublinhado por tons “cinza asséticos“, mostra o princípio de uma viagem de autodescoberta. E à medida que Ana vai-se encontrando (na pele de Nina), cores contrastantes vão brotando, em especial os vermelhos que carregam os tons da vida noturna, em especial as transmitidas pela noite de Madrid. “Por isso o filme chama-se Ana de Dia“, explicou-nos.
E haverá algo de biográfico nesta mulher em busca dela mesmo? Andrea diz que sim, mas apenas pequenos detalhes, como ser de Pamplona e de classe média. Para além disso, a jovem realizadora reconhece que nasceu numa povoação muito pequena e que sempre procurou muitas coisas diferentes pois não se sentia completamente bem no local, em especial no que diz respeito às tradições e aquilo que as pessoas esperavam dela. “Sempre arrisquei em fazer coisas diferentes e não precisei de uma ‘dupla’“, disse-nos entre sorrisos, frisando que tudo foi uma construção de ficção e que fez questão de não ler O Homem Duplicado de José Saramago ou ver o filme Enemy de Denis Villeneuve, que adapta o livro, por estes também envolverem tópicos similares.
Ingrid García Jonsson soberba entre Ana e Nina
Sobre a escolha de Ingrid García Jonsson para o protagonismo, a cineasta diz que ficou encantada quando a viu em Hermosa juventud: “Encontrei-a numa festa e dei-lhe o guião. Ela gostou e como estava a ter muitos papéis secundários, quis apostar num protagonismo“. A realizadora acha que a atriz é perfeita para o papel, primeiro porque gostava da ver como Ana, e depois porque ela é “muito como Nina, punk e livre“.
Outro factor importante para esse bom trabalho com Ingrid é o facto de Andrea ser também ela uma atriz, sabendo assim o que os atores sentem nas filmagens: “Percebo bem os atores porque sei o que é estar à frente de uma câmara, a insegurança que sentes, pois tens toda a equipa a olhar para ti. E não sabes o que estás a fazer e tens de confiar. Gosto de ouvir muito os atores e transmitir-lhes confiança, pois se estiverem seguros o trabalho vai ser muito mais fácil“.
Estética turbinada
Outro elemento fundamental nesta obra críptica é o trabalho de montagem, executado por Miguel A. Trudu, que juntamente com a direção de fotografia (de Julie Carné Martorell) transformam todo percurso de Ana e “da sua dupla” numa viagem caleidoscópica profundamente sensorial. “Durou 9 meses a montagem, porque também estávamos a fazer outras coisas (…) foi um trabalho muito duro para conseguir chegar à 1h45 minutos do final” explicou, garantindo que no futuro vai querer voltar a trabalhar com Juli e Miguel.
Almodóvar na bagagem
Antes de trabalhar em Ana de Dia, Andrea foi assistente de realização “aprendiz” em Julietta de Pedro Almodóvar, uma experiência que caracteriza como “um sonho“. “Sempre vi os seus filmes e ele é uma referência absoluta. Aprendi muito nestas rodagens e descobri que é muito minucioso no trabalho. Cada plano é estudado milimetricamente.. (…) Trouxe isso [dele] para mim“.
O Futuro
Há vários anos que a realizadora tem na agenda um documentário sobre os The Kelly Family, mas a falta de verbas tem adiado as suas pretensões: “Não estou a conseguir. Fui com a minha irmã numa viagem pela Europa, entrevistamos pessoas que os conheceram, e falamos mesmo com alguns dos membros, mas é difícil. Esta era uma família de músicos nómadas com uma vida interessantíssima e com um arquivo videográfico gigantesco, pois o pai gravava-os a todos. Mas para aceder a esse arquivo precisamos de …. dinheiro. Alguns dos membros aceitaram, mas outros nem responderam aos pedidos. São 12 irmãos… por isso o projeto está parado.“
Até, eventualmente, avançar com esse projeto, ela vai trabalhando em outros e contou-nos que escreveu um novo guião, denominado “Nina“. “É uma adaptação livre de uma peça de teatro homónima (…) É sobre uma mulher que volta à sua terra para matar um homem (…) espero filmar em 2020″.
Não pondo de lado a hipótese de trabalhar para uma das novas plataformas de streaming, ou para um qualquer canal de tv tradicional, ela admite filmar uma série, ou até um filme, embora neste caso – e se fosse um projeto escrito por si – preferia sempre que ele chegasse aos cinemas e não ficasse retido apenas nessas plataformas.
Certo é uma coisa. Andrea admite continuar a dar aulas como o faz regularmente, mas não em locais que lhe pagam “400 euros“. A esses dirá não e ainda há bem pouco tempo recusou uma dessas ofertas…

