Faleceu esta terça-feira, aos 81 anos, o diretor de fotografia português Eduardo Serra. A notícia foi confirmada pela Academia Portuguesa de Cinema, que expressou “profundo pesar” pelo desaparecimento do seu Membro Honorário, cuja obra deixou uma marca indelével no cinema europeu, norte-americano e português.
Nascido em Lisboa em 1943, Eduardo Serra foi o único português a ser nomeado duas vezes ao Óscar de Melhor Fotografia — por The Wings of the Dove (As Asas do Amor, 1997) e Girl with a Pearl Earring (Rapariga com Brinco de Pérola, 2003), este último também premiado com um BAFTA pela sua direção de fotografia. Ao longo de uma carreira que se estendeu por mais de cinco décadas, tornou-se conhecido pelo seu domínio da luz natural e pela capacidade de criar imagens de grande profundidade emocional e estética refinada.
A sua trajetória começou em Portugal, onde, ainda jovem, se envolveu no movimento cineclubista e se opôs ao regime do Estado Novo. Em 1963, rumou a Paris, onde estudou na ENS Louis Lumière e na Sorbonne, formando-se em Cinema e História de Arte. Iniciou-se como assistente de câmara em mais de trinta filmes antes de estrear como diretor de fotografia em Sem Sombra de Pecado (1983), de José Fonseca e Costa.
Ao longo dos anos, assinou a fotografia de obras como A Mulher do Próximo (1988), O Processo do Rei (1990), Amor e Dedinhos de Pé (1992) e O Delfim (2002), de Fernando Lopes.
Na Europa, consolidou-se como um dos diretores de fotografia mais respeitados, graças a parcerias duradouras com grandes nomes do cinema francês. Trabalhou em sete filmes com Claude Chabrol, como A Dama de Honor (2004), e em nove com Patrice Leconte, incluindo O Marido da Cabeleireira (1990), Le Parfum d’Yvonne (1994), Les Grands Ducs (1996), Confidences trop intimes (2004), Bellamy (2009) e A Promise (Uma Promessa, 2013), o seu último crédito como diretor de fotografia.
Nas décadas de 1990 e 2000, alcançou reconhecimento global com trabalhos em grandes produções internacionais. Foi o responsável pela imagem de Jude (1996), de Michael Winterbottom, O Protegido (Unbreakable, 2000), de M. Night Shyamalan, e Diamante de Sangue (Blood Diamond, 2006), de Edward Zwick, filme pelo qual recebeu nomeações para o BAFTA e o ASC Award.

A sua participação na saga Harry Potter — em Harry Potter e os Talismãs da Morte – Parte 1 (2010) e Parte 2 (2011), os dois últimos filmes da série, realizados por David Yates — foi um dos momentos de maior visibilidade internacional. Outros títulos importantes da sua filmografia incluem Bobby Darin – O Amor é Eterno (2004), de Kevin Spacey, La Veuve de Saint-Pierre (2000), com Juliette Binoche, e What Dreams May Come (1998), com Robin Williams no elenco.
Como realizador, Eduardo Serra filmou, entre os anos 1970 e 1990, Um Aniversário (1975), sobre as primeiras eleições livres em Portugal após o 25 de Abril; Rink-Hockey (1982), um retrato do Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins em Barcelos, quando Portugal se sagrou campeão; e Cinéma portugais? Un mod d’emploi (1990), um ensaio crítico sobre as dificuldades do cinema nacional, encomendado pela televisão francesa SEPT. A Cinemateca Portuguesa dedicou em julho uma homenagem a Serra, na forma do ciclo “Interpretar um texto com luz”. Composto por 16 filmes da sua cinematografia, estavam entre eles esses três documentários – exibidos na sessão inaugural, a 8 de julho.
Distinguido com o Sophia de Carreira em 2014, e agraciado com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique em 2017, Eduardo Serra foi, também em 2014, homenageado pela American Society of Cinematographers (ASC) com o prémio de carreira — um reconhecimento raro para um cineasta europeu.
“Levou consigo a visão de um artista português que soube dialogar com cineastas de várias geografias, do cinema de autor europeu às grandes produções internacionais”, escreveu a Academia Portuguesa de Cinema.

