Objeto de culto pela sua mirada poética sobre o realismo, “Arábia”, um dos filmes de maior revelo na cartografia de afetos do Brasil da última década, retorna às telas para uma exibição especial no Rio de Janeiro, esta quarta-feira. A longa-metragem tem sessão às 21h no Estação Net Rio. Antes da exibição, às 20h, há o lançamento de um livro dedicado à produção do filme. Ao fim da projeção, haverá debate com os realizadores, os mineiros Affonso Uchoa e João Dumans. Essa pérola de Minas Gerais soma 17 prémios internacionais no currículo, para ampliar o seu prestígio. Abriu a sua trajetória de encantamentos pelo Festival de Roterdão, na Holanda – um canteiro de narrativas com instinto de experimentação formal. De lá, correu 49 mostras estrangeiras, indo de San Sebastián (a maior de Espanha) a Yerevan, na Arménia, passando ainda por Cartagena, na Colômbia, num trajeto demarcado por dez prémios internacionais. Junte-se a eles cinco troféus Candango, incluindo o de Melhor Filme, conquistado no Festival de Brasília de 2017 pela saga andarilha de Cristiano, vivido por Aristides de Souza.
Quem deu a dica da sua grandeza foi o escritor Luiz Ruffato, em “As máscaras singulares”.
Na sua poética, as Gerais ganham um peso mítico, assim como na cinemática dos seus conterrâneos de Minas. Escreve Ruffato: “Onde quer que estejas, em teu país ou em outro, és estrangeiro: ninguém a tua língua compreende. Só, o deserto de estranhas veredas percorres. Conservas, no entanto, dos primeiros anos, o albor, quando tua cidade, madrasta e mãe, teus sonhos na noite fresca velava. A grande mão que afagou-te esmaga o peito agora. Ah! Somos apenas o que somos. Apenas”.
Isso aí, que a poesia do autor de “Eles Eram Muito Cavalos” desvela, define “Arábia”, lançado em 2017. Ele é potente na decantação lírica (ainda que de um lirismo desesperançoso) do realismo. É o cinema do “apenas”, isto é, da percepção das singelezas (as belas e as dolorosas). Faz a síntese poética das Gerais, lar de Ruffato, de Carlos Drummond de Andrade, de João Guimarães Rosa e de um novíssimo cinema de observação, como se vê neste ensaio sobre a andança como expressão de identidade. Perfumado à morte, a trama usa como eixo dramático as memórias de um trabalhador acidentado, o tal Cristiano, que arriscou transformar as suas recordações num rascunho de diário.
À exceção de um preâmbulo cheio de lirismo, todo o resto do filme de Dumans e Uchoa é uma espécie de monólogo da personagem de Aristides, que corre em contraponto às imagens, quase como uma trilha sonora. Ela não direciona o olhar: este corre livre, como os pés de Cristiano, na sua errância quase inata. Esqueça virtudes heroicas, Cristiano é gente. É a gente: trabalha com tangerinas aqui, vira metalúrgico ali, bebe com os amigos, conversa, ama e se deixa amar por uma colega, num romance que condimenta sem muita pimenta o seu jeito de viver.
Não há projetos ou sonhos nele: há deslocamentos. Cada posto é um aprendizagem, para ele e para nós, espectadores, e para o jovem André (Murilo Caliari), que encontra o caderno de memórias de Cristiano (depois que este se aleija gravemente) no início do filme e engata a leitura, partilhando o saber do errar connosco. O maior achado é a simplicidade, a argamassa com que o protagonista constrói o seu mundo interior, entre perdas e ganhos.
Sem floreios ou adereços vaidosos na fotografia de Leonardo Feliciano, sempre atenta à composição de quadros rigorosos na habilidade de sintetizar os espaços por onde flana, a câmara de Dumans e Uchoa lembra o dispositivo narrativo do mestre japonês Yasujiro Ozu (tipo o de “Early Spring”). Segundo Ozu, as impressões imediatas traem, as observações ruminadas e pacientes libertam. Os mineiros filmam assim. E, apesar de a palavra ser a bússola da nossa jornada pelas mil e uma noites de Cristiano, há muita contemplação silenciosa em “Arábia”. O silêncio cumpre o papel de ser o som da reflexão, da autodescoberta, das convenções de um mundo que institucionalizou a opressão. A Minas do filme não é bucólica, não é árcade: é uma Minas operária, onde o ato de trabalhar dá subjetividade ao indivíduo.

