O aviso foi dado, ainda antes de “Tiger Stripes” abrir a competição da Semana da Crítica, pela diretora artística da barra paralela do Festival, Ava Cahen: “Imaginem algo entre ‘Junior‘ de Julie Ducourneau e ‘Tropical Malady‘ de Apichatpong Weerasethakul e têm ‘Tiger Stripes‘”, filme estreia da malaia Amanda Nell Eu.
Se adicionarmos a estas duas produções uma mais recente, “Red” da Disney, as paisagens da selva Malásia, e uma linguagem cinematográfica invadida por pequenos vídeos ao estilo Tik Tok, então ficamos mais próximos do que este energético e frequentemente alucinado “Tiger Stripes” é.
Zaffan (Zafreen Zairizal) é a protagonista, uma pré-adolescente que muitas vezes larga o tudong, ou hijab, e atormenta a mãe e amigas pela sua rebeldia e busca de liberdade. Um dia, começa a metamorfosear-se num tigre quando chega a primeira menstruação, momento que a posiciona agora como um “bicho”, frequentemente mal cheiroso, de quem as colegas se querem livrar.

Coming-of-age de passagem física e mental para uma outra idade e posição no circuito de amizades escolares, esta história de amadurecimento explode na nossa cara através de uma direção de fotografia que opta pelo naturalismo nas cenas de dia, e uma estilização imagética (de cores quentes) nas cenas noturnas; uma montagem vertiginosa em fragmentos que impõem um ritmo implacável; e uma banda-sonora eletrónica que contrasta com a ideia cinéfila que temos de selva, misticismo e “extra-ordinário”, mostrando uma nova geração a acelarar para o futuro a toda a velocidade.
Mas apesar do vigor e força desta sua primeira incursão nas longas-metragens, especialmente no campo metafórico, Amanda Nell não consegue disfarçar as carências de ter de lidar com um orçamento reduzido, em particular no tratamento CGI, que invade o ecrã em algumas cenas e torna-se objeto de risos inadvertidos. Talvez com a presença na Semana da Crítica, a vitória e perspectivas de negócio na distribuição mundial, o filme possa corrigir este elemento (ainda vai a tempo), garantindo maior qualidade e equilíbrio ( e náo ser um elemento de distração).
Mas nada disto invalida esta produção sui generis, que ainda nos doseia com vários momentos humor, enquanto demarcadamente expõe uma questão do foro feminino e toda a transformação social que isso implica.




















