Na rota de África com o Visions du Réel

(Fotos: Divulgação)

Cinco filmes com histórias africanas fortes, todos eles com um trabalho estético aprimorado, executados no mais profundo realismo (Garderie Nocturne) ou com fusões do mesmo com imagens hipnóticas de rara beleza e transcendência (Faya Dayi) que iluminam rotas e vidas marcadas por duras realidades.

Comecemos por “Zinder”, documentário primoroso de Aïcha Macky, em estreia mundial na secção competitiva internacional, que nos leva à cidade-título, no centro do Sahel, onde os gangues (chamados “Palais”) dominam no Bairro de Kara Kara, tradicionalmente conhecido como uma zona de “leprosos e párias”,  e a juventude vê muito poucas opções de sobrevivência se não pertencer a eles. A elegância da câmara de Aïcha, que frequentemente coloca os intervenientes ao som de música espirituosa e momentos de pausa e reflexão no meio da bazófia importada da cultura gangster do cinema é a maior surpresa de “Zinder”, um segundo filme fulminante de uma figura que cruza imagens de cinema com preocupações sociológicas como poucas no continente.

Do Níger passamos para o Burkina Faso, bem perto da capital, em Bobo-Dioulasso, local onde observamos de perto uma ama especial, uma idosa que toma conta dos filhos de várias  profissionais do sexo, quando estas se aventuram nas noites à procura de clientes.

Garderie Nocturne

Realizado por Moumouni Sanou, e já com passagem pela Berlinale, “Garderie Nocturne” – presente na secção Latitudes – é uma observação terna onde o novelo de personagens vai-se desfiando à medida que ganha a confiança com o realizador para nos contar histórias de mulheres que vendem o corpo como sobrevivência.

E é uma observação cuidada de como mulheres nesta sociedade que vivem, bem além de uma incidência primordial na sua profissão, sendo focados aspectos como os momentos de lazer e a maternidade, não só delas, na sua interação com os filhos, mas da velha mulher, Coda, que toma conta deles. 

Faya Dayi

Finalmente, e vindo do Festival de Sundance, também no Vision Du Réel, na competição internacional, viajamos agora até à Etiópia em “Faya Dayi” com a cineasta em estreia Jessica Beshir, que através de um preto e branco carismático e até psicotrópico leva-nos numa “trip” à cultura do Khat, uma planta que quando mastigada age como um estimulante, com poderes para ajudar na oração e permitir a transcendência, além de servir como escape psicológico a vidas sofridas. 

Dos cinco filmes, este  o mais sumptuoso visualmente, construindo quadros humanos individuais que se transformam em coletivos, carregados de cenas e marcas do quotidiano onde o Khat surge como um plano de fuga mental à sua condição.  Uma obra profundamente imersiva.

À la recherche d’Aline

Das longas para as curtas, paragem no Senegal onde a história da combatente anti-colonial Aline Sitoé Diatta é recontada e venerada pelos senegaleses como força de resistência na Segunda Guerra Mundial às taxas impostas para alimentar a guerra ao serviço dos gauleses (Ousmane Sembene retratou isso no seu “Emitai”). “À la recherche d’Aline”, está na secção Opening Scenes do certame, tem a assinatura de Rokhaya Marieme Balde, e reconta a história da resistente a partir de uma trupe teatral.

The Orphanage

Finalmente, terminamos no Lesoto, país onde Teboho Edkins documenta em “The Orphanage” a vida de crianças que vivem num orfanato budista, observado cuidadosamente os ensinamentos e a captação da aprendizagem por parte de crianças, que perante as câmaras demonstram uma distância reduzida entre o ato de meditação e o adormecer verdadeiramente.

Realizador do espesso “Days of Cannibalism“, que analisava as transformações de uma área e o impacto social da chegada um modelo económico completamente diferente da sociedade tradicional que lá vive, esse filme tem aqui uma certa extensão, com crianças africanas a serem educadas num registo bem longe dos ensinamentos tradicionais.

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