O rigor e primor estético de Aïcha Macky no seu “Zinder“, em estreia mundial na secção competitiva internacional do Vision Du Réel, é o que mais se destaca nesta visita à cidade-título, no centro do Sahel, onde os gangues (chamados “Palais”) dominam o Bairro de Kara Kara, tradicionalmente conhecido como uma zona de “leprosos e párias”. Um espaço onde a juventude, a quem a realizadora dedica o filme, tem muito poucas opções de sobrevivência a não ser junta-se a esses grupos e viver com as consequências dessa decisão. 

É com um dos gangues mais perigosos da região, autodenominado “Palais” Hitler (isso mesmo), que começamos esta viagem ao crime e violência, sempre com o espectro da organização jihadista fundamentalista islâmica sunita Boko Haram – que se aproxima – nas suas mentes, mas também nos telemóveis, onde se acumulam vídeos dos atentados e massacres perpetrados por este grupo terrorista que defende a aplicação da lei sharia na região.

Bazófia nunca falta as estes homens, dominados por uma cultura patriarcal machista onde o culto do corpo e a replicação da vida gangster que observaram no cinema – seja originário de Hollywood ou Nollywood – ganhou relevância na formação da personalidade no meio de uma ausência total de perspectivas para escapar à pobreza. E nisto, a cineasta, nascida na cidade, mas que sempre evitou esta área, apresenta com sapiência os seus diálogos, as histórias mirabolantes que têm para contar, mas também alguns desejos mais profundos.

Também conhecemos gente que já fez partes desses gangues, como Bawa, que depois da experiência prisional ou mudanças pessoais no registo da vida deixaram esse ambiente e trabalham agora de sol a sol para sobreviver, sempre acompanhados das memórias das atrocidades cometidas no passado. Um homem que recorda as violações grupais em que participou, especialmente orquestradas a mulheres mais “libertinas”, é particularmente doloroso de se assistir pelo cariz grotesco da explicação e do ato. O grande negócio (ilegal) da região é a venda no mercado negro de gasolina, contrabandeada da fronteira com a Nigéria, mas tudo se trafica e rouba, tudo se faz para sobreviver.

A elegância da câmara da cineasta, o cuidado e calma em criar e montar imagens e sequências, que frequentemente colocam os intervenientes acompanhados de música local espiritual, transformam esta numa viagem ímpar, entre o real e o onírico.

Em suma, um segundo filme bem orquestrado e maduro de uma figura que cruza imagens cinemáticas de rara beleza com preocupações sociológicas como poucos cineasta o fazem no continente.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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