Veneza: uma gôndola felliniana para as dores do amor

(Fotos: Divulgação)

Caiu nesta terça-feira na rede um peixe audiovisual capaz de saciar a fome de poesia do cinema brasileiro: o trailer de “Veneza”, belíssimo longa-metragem do carioca da Ilha do Governador Miguel Falabella em locações entre o Uruguai e a terra das gôndolas em 2018, tendo permanecido, até hoje, inédito em circuito.

A promessa é que a estreia comercial aconteça em junho, tendo a diva ibérica Carmen Maura como anzol para fisgar sensibilidades cinéfilas. Falabella não filmava desde “Polaróides Urbanas” (2008), dedicado a projetos na TV e no cinema, sem nunca travar uma fúria criativa alimentada por comédias carnavalescas, melodramas da Pelmex e versos de Emily Dickinson (1830-1886), um de seus faróis. A sua nova longa-metragem promove uma radical imersão do dramaturgo, ator, diretor teatral, cineasta e eterno Caco Antibes no universo cinematográfico, pilotando uma fábula romântica com foco no companheirismo, com ecos de Fellini, sobretudo o Fellini de “A Voz da Lua” (1990). Uma fábula perfumada com o aroma de Dickinson, para nos lembrar que “Hope is the thing with feathers” (“Esperança é a coisa com penas”, título de um dos livros da poeta, lançado em 1891). Tem um poema dela em especial – traduzido por Aíla de Oliveira Gomes, professora do realizador na Universidade – que dialoga diretamente com o filme dele:


Esta, minha carta para o mundo,
Que nunca escreveu para mim
Simples novas que a Natureza
Contou com terna nobreza.
Sua mensagem, eu a confio
A mãos que nunca vou ver
Por causa dela — gente minha —
Julgai-me com bem-querer
”.


De certa forma, “Veneza” é uma carta ao tempo. Uma carta de amor que, por sê-lo, não teme cair no ridículo do desvario romântico, o que pode ser apelo comercial a mais nestes dias de aspereza. O seu trauler publicitário na web chega com a promessa de encantar espectadores – e tem força de sobra para isso, começando pela sua protagonista.


Há décadas, Pedro Almodóvar comprovou que, nas telas, o binómio feminino lirismo + fúria atende pelo nome de Carmen Maura. Mito espanhol consolidado em filmes almodovarianos geniais como “A Lei do Desejo” (1987) e “Volver” (2006), Carmen Maura viajou a terras uruguaias para viabilizar “Veneza”, um estudo fabular sobre amor, humor e lágrimas no ambiente do sexo a preço fixo. No projeto, com o selo da Globo Filmes, Falabella põe a maior estrela da Espanha numa viagem onírica pelos céus da saudade, fellinianamente favorecido pela fotografia de Gustavo Hadba – uma das mais inspiradas da sua carreira.

Num dia sem trânsito no Uruguai, gastava-se cerca de 45 minutos do aeroporto de Montevideu até o set de filmagem de “Veneza”: lá quase tudo foi rodado num casarão numa região bucólica, de mata verdinha e coaxar de sapos, adereçado como se fosse um cabaré de interior, com luzes vermelhas, boleros na jukebox e acompanhantes comprometidas com a desesperança. Bom nem todas… Algumas das prostitutas criadas com base na peça homónima do argentino Jorge Accame – encenada por Falabella nos palcos do Rio em 2003 – sonham, inclusivamente a dona do bordel, Gringa, papel de Carmen.

Tendo como realizador assistente o sino-brasileiro Hsu Chien Hsin, a longa foi produzida por Julio Uchôa, da Ananã, empresa responsável pelos milhões arrecadados pela franquia “SOS – Mulheres ao Mar” e pelo diretor do filme de culto “Soundtrack” (2017). Falabella contou ainda com o aporte fino de Fernando Muniz, produtor de “Cinema Novo” (troféu L’Oeil d’Or em Cannes, em 2016). Com o empenho desses dois produtores, “Veneza” pode ser parcialmente rodado. É lá que Gringa sonha acertar as contas (leia-se reatar uma velha paixão) com o único homem que a amou de verdade. Mas ela acabou roubando-o. O dinheiro do roubo pagou o seu bordel… e anos de culpa, numa relação de rapinagem que traz-nos Emily Dickinson uma vez mais: “Nem para o amor eu tive tempo —/Já que/Muito de mim tinha que dar —/O vão labor que o amor pedia/Achei/ Duro demais para aguentar”. Agora, mais velha, cega, dickinsoniana, Gringa sonha ir pro Lido de novo. E ser feliz.

Nem todas as suas “meninas” têm disposição para sonhar, como comprova a ressequida Jerusa (Danielle Winitis, numa atuação irretocável). Já outra tem sonhos de mudar de vida ainda ligados a um ideal de vida a dois, como prova a (trágica) trilha de Madalena, personagem que deu a Carol Castro um meritíssimo Kikito de melhor atriz secundária em Gramado. O seu olhar carrega algo “imparável” da Gena Rowlands de “Uma Mulher Sob Influência” (1974), o que é algo gigante.

Entre ressacas, tangos e tragédias, ainda existe espaço para a bondade no rendez-vous de Gringa. Embrulhado na finíssima direção de arte Tulé Peak (também laureada em Gramado) e num inventivo figurino de Bia Salgado, o “Amarcord” de Falabella investiga a noção moderna do que é ser bom, nas quebradas do mundaréu, apoiado nas figuras de uma garota de programa veterana, Rita (Dira Paes), e de um assíduo freguês da personagem de Carmen: Tonho, papel que comprova as múltiplas ferramentas cénicas de Eduardo Moscóvis. Rita e Tonho são os filhos que Gringa não teve. E embarcamos na história dela, tornamo-nos parte dessa sua família.

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