A cultura brasileira, sobretudo a musical, é, inquestionavelmente, das mais ricas do mundo. Fruto do espírito de um povo que perante grandes provações tem sempre um sorriso fácil e como habitualmente se diz, “tem o samba no pé”.
É também na cultura musical popular brasileira que se situam alguns dos mais criticados géneros musicais. Pontos de polémicas por serem pouco ricos musicalmente, ou até mesmo pela forma vulgar como tantas vezes expõem as mulheres, seja na forma como dançam, seja através dos videoclipes que ilustram as musicas e que tantas vezes transformam as mulheres em pouco mais do que objetos fúteis de desejo.
O funk carioca, ou simplesmente funk, nasceu nas favelas do Rio de Janeiro e popularizou-se por todo o Brasil. É importante esclarecer aqueles que não sabem, que apesar de partilhar o nome, é totalmente diferente do funk originário dos EUA.
A partir de 1970, os bailes funk – festas nas favelas onde a música funk era a estrela maior – ganharam grande importância. Nos anos 80 as músicas deste género musical chegaram às rádios e com isto, o sucesso aumentou. Na década de 90, e como consequência da propagação pelo pais e por esforçar-se em espelhar nas suas letras o dia-a-dia dos bairros mais carenciados do Brasil, mas sobretudo porque os bailes começaram a ser palco de lutas entre localidades rivais, provocando vários ataques e consequentemente, mortes, o funk começou a ser visto com algum preconceito.
Em 2000, o funk sofreu uma mutação musical, ao integrar cada vez mais elementos de rap, sobretudo influenciados pelo hip hop americano. Para evitar violência, foram criadas leis que regulamentavam os bailes e em setembro de 2009, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro aprovou um projeto que definiu o funk como “movimento cultural e musical de carácter popular do Rio de Janeiro“. Em 2018, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro aprovou o projeto que definiu o passinho como “património cultural imaterial do povo carioca“. O passinho é um tipo peculiar de dança funk, popular nos bailes cariocas.
O estilo musical original subdividiu-se em muitos subgéneros: funk melody; funk ostentação; funk ousadia; funk proibidão; new funk; eletrofunk; brega funk; funk 150 BPM. As bases, história e trajetória do funk são muito semelhantes às do hip hop, mas no entanto, se a internacionalização do rap norte-americano se deve a Afrika Bambaataa, conhecido como o criador do movimento que estabeleceu os quatro pilares determinantes da cultura hip hop: o rap, o DJing, breakdance e o graffiti, a internacionalização do funk é assinada por Anitta.

“Anitta: Made in Honório” não é o primeiro apontamento sobre a artista na Netflix e não se trata propriamente de um documentário cor-de-rosa acerca da vida daquela que nasceu com o nome de Larissa de Macedo Machado.
Pedro e Andrucha Waddington realizaram um projeto que mostra os bastidores da vida pessoal e profissional de Anitta. A brasileira é muito mais do que uma cantora funk, é um todo: compositora, atriz, dançarina, empresária e apresentadora. O documentário mostra uma mulher carente – característica que assume sempre na primeira pessoa – que procura incessantemente por uma relação perfeita mas que é difícil encontrar, não só pela sua forma de vida mas também muito pela sua forma de ser e estar. Impulsiva, por vezes mal educada [pelas asneiras que usa correntemente], é uma mulher que, apesar de gostar mais do sexo masculino, não diz que não a uma relação lésbica. Anitta é uma mulher dependente da família, que mistura o pessoal com o profissional. A família faz parte do “negócio Anitta”.
Apesar de ter uma equipa grande, a cantora não descuida em nenhum detalhe da sua carreira. Controla os contratos, a comunicação, a publicidade, o guarda-roupa, os bailarinos, as coreografias, os cenários e até a iluminação dos concertos, os vídeos musicais e todos os elementos que os compõem. É uma mulher de causas e envolve-se profundamente com algumas delas, chegando mesmo a estudar determinados assuntos para ainda ficar mais ao corrente. É o caso dos problemas ambientais da Amazónia, por exemplo. A vida de Anitta é exaustiva, sendo que a pressão constante que coloca em si própria, esgota-a.

Foi Anitta que colocou o funk nos holofotes mundiais e que perpetua esta permanência, abrindo portas a outros. Anitta teve a hábil consciência de que para manter o sucesso além Brasil era necessário fazer duelos com músicos de outros países e noutras línguas, sobretudo no mercado de língua espanhola e até nos EUA, com os Black Eyed Peas. E é também a internacionalização da sua carreira que faz com que Anitta tenha que recorrer a uma sonoridade mais pop, afastando-se do funk 100% puro, o que provoca alguma critica entre os fãs mais extremistas. Mas, até agora, Anitta nunca negou ou abandonou as suas raízes.
No inicio da sua carreira, foram muitas as publicações de destaque e os meios de comunicação mais importantes que durante anos ignoraram a miúda provocadora da favela. Em 2014 foi acusada de ser antifeminista, ao afirmar – na Rede Globo – que “as mulheres lutaram tanto para ter os mesmos direitos do que os homens, que, quando conseguiram, quiseram tomar conta da situação e o lugar do homem”. A cantora foi obrigada a moderar o seu discurso.
Em 2017, a GQ brasileira, elegeu-a como “Mulher do Ano“. Mais tarde, a Vogue considerou-a uma das 100 pessoas mais influentes e criativas do mundo. Pódio que alcançou devido ao “engajamento em prol da positividade do corpo ilustrada pela escolha afirmativa de exibir a sua imagem sem retoques no vídeo de ‘Vai Malandra’”.
Todo este peso e relevância de Anitta no panorama musical internacional não permite descuidos nos bastidores da sua vida, pessoal e profissional. Assunto que a série Netflix explora. Não é preciso gostar de funk para ver “Anitta: Made in Honório” pois não é um documentário sobre o género musical, é sobre uma mulher “mascarada” de forte, mas extremamente sensível, apaixonada pela família e pela sua profissão.

