Sintonizado com toda a paixão do Brasil pelo futebol, visto sob a ótica do audiovisual, a partir de filmes e séries, o CineFoot, hoje uma referência internacional na representação do desporto nas estéticas documentais, chegou à sua 11ª edição, sob a direção de Antonio Leal, apostando nas plataformas digitais como a sua arena de acesso a curtas e longas-metragens do mundo inteiro.
Outrora presencial, o evento oferece acesso inteiramente gratuito para todo o território brasileiro, na plataforma INNSAEI.TV. Dos 76 títulos que integram a programação, até o dia 27, 59 filmes são brasileiros, representantes de todas as regiões do país. Há ainda 17 produções internacionais oriundas da Argentina, França, Itália, Peru, Colômbia, México, Uruguai, África do Sul, República Tcheca, Portugal e uma coprodução Alemanha/Palestina. Foram convocados títulos como “50 anos do Tri”, de André Gallindo; “Paolo Rossi – Um sonhador que nunca desiste”, de Michela Scolari e Gianluca Fellini; e “A Glória Eterna”, de Ricardo Taves e Adriano Esteves. Vai haver ainda a exibição da série “Donas do Baba”, de Tais Bichara e Rodrigo Luna, sobre a relação das mulheres com o futebol. Como atração de encerramento, a curadoria aposta no italiano “A última partida de Pasolini”, de Giordano Viozzi, sobre o realizador de “O Evangelho Segundo São Mateus” (1964).
Na entrevista a seguir, Leal para ao C7nema sobre a configuração do seu festival.
Qual é o recorte do CineFoot em 2020 e de que maneira esse desenho curatorial reflete as mudanças do próprio futebol?
O Cinefoot é um festival internacional de carácter competitivo. A gente vai se balizando naquilo que vai chegando por meio das inscrições para o festival. Lançamos as inscrições durante a pandemia, o que foi uma incógnita se iria acontecer. Para a nossa surpresa chegaram muitos filmes, muitos temas variados. O que é sempre muito bom, o nosso perfil de programação é sempre muito plural e diversificado. A gente consegue construir um posicionamento que não somos só um festival de cinema de futebol que só exibe filmes sobre conquistas, clubes e jogadores. A gente leva para o cinema o que mais gostamos e isso significa filmes que retratam aspetos humanos nos quais o futebol toca. Também temos questões dos ídolos. Esse ano recebemos um volume enorme sobre o bicampeonato do Flamengo ano passado.
Qual tem sido a tónica mais recorrente dos documentários selecionados e de que maneira o documentário tem revelado novas perspectivas do futebol brasileiro?
As questões sociais estão bem destacadas no festival em alguns filmes que chegaram para nós. Muitos filmes estão trazendo futebol de várzea, que é o futebol mais verdadeiro e mais conectado com a questão social nas regiões onde é praticado. A conquista do bicampeonato da Libertadores pelo Flamengo no ano passado já nos dava um indicativo de que chegariam muitos filmes sobre essa conquista e de facto aconteceu. O mais curioso é que o festival começou na semana em que se completa um ano do título, no dia 23 de novembro. Neste dia, a gente concentra a nossa programação nesses filmes que falam da conquista. O festival possui alguns eixos ligados ao futebol, que sempre nos guiam na construção das mostras paralelas. A gente tem a comemoração dos 50 anos da conquista do tricampeonato do Brasil no México. Temos os 70 anos do Maracanã e temos os 80 anos do Pelé. Temos uma celebração especial sobre o Falcão, um jogador brasileiro que jogou no Roma da Itália. Neste ano completam-se 40 anos da estreia dele. A ida dele para Roma foi um momento muito marcante no futebol brasileiro e temos o filme “Pergunte Quem Era Falcão” que vai estar celebrando essa efeméride. Do ponto de vista de países homenageados, todos os anos a gente escolhe algumas nações para firmarem cooperações culturais com o festival. Este ano selecionamos o México. O segundo país homenageado é a República Checa.
O que justifica a escolha de um documentário sobre a paixão do realizador italiano Pier Paolo Pasolini para o encerramento? Como esse título fecha o desenho da curadoria?
É uma maneira de destacar um filme que não é exatamente o futebol dentro das quatro linhas. Nós abrimos e fechamos o festival esse ano, numa edição especial de pandemia, com filmes que fogem das questões do campo e da bola rolando. “Loteca”, da Argentina, veio na abertura. A possibilidade de mostrar esse filme no festival vem, exatamente, do desejo de reforçar esse aspecto social e cultural do evento. Foi uma felicidade muito grande poder ter contacto com esse filme. O Giordano Viozzi reconstruiu esse jogo, mas foi além dele. É uma narrativa contextualizada num momento histórico conturbado da Itália. Pasolini era totalmente fascinado pelo futebol e isso fazia com que ele utilizasse esse mecanismo do futebol para poder difundir e gerar reflexão em torno de suas ideias. Toda essa ousadia e versatilidade na própria vida do Pasolini transbordava para além das questões do cinema e da arte. Esse era o momento em que ele vivia toda sua plenitude de ter nascido na Bolonha e da sua posição política.
Qual é a importância de se ter uma série como “Donas do Baba” num festival de cinema?
Desde o ano passado inauguramos uma sessão para séries, pois percebemos que está crescendo muito o volume de narrativas serializadas sobre futebol. O “Donas do Baba” é muito preferencial por ser uma estreia e pelo seu olhar feminino. Os filmes de futebol refletem como a sociedade vai avançando. Temos muitos filmes sobre temática feminina, temática LGBTQ+. Estamos sempre procurando dar espaço para esses olhares e que observações do futebol sejam levadas para nossas exibições.

