Só faz crescer, nas redes sociais brasileiras, entre adesões e controvérsias, o boca a boca em torno da edição 2020 do Festival Varilux, a maior maratona de produção audiovisual francesa no Brasil, a ser realizada presencialmente no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Porto Alegre, e mais 40 de cidades. No primeiro semestre, os seus organizadores, Emmanuelle e Christian Boudier, realizaram online (com êxito absoluto) uma retrospectivas das mostras anteriores, sintonizados com a urgência do movimento #FiqueEmCasa.
Agora, com a reabertura oficial do circuito exibidor no Brasil, eles dão suporte às salas, trazendo uma tonelada de atrações inéditas, entre eles o celebrado “Hors Normes” (“Os Especiais”), com Vincent Cassel e Reda Kateb, que encerrou o Festival de Cannes em 2019.
Esta edição do Varilux vai ainda promover uma celebração dos 60 anos de “À bout de souffle” (1960) e vai ainda exibir “La bonne épouse”, de Martin Provost; “La fille au bracelet”, de Stéphane Demoustier; “Effacer l’historique”, de Gustave Kervern e Benoît Delépin; “Belle Epoque”, de Nicolas Bedos; “DNA”, de Maïwenn; “Une belle équipe”, de Mohamed Hamidi; “Gagarine”, de Fanny Liatard, Jérémy Trouilh; “Mon Cousin”, de Jan Kounen; “Antoinette dans les Cévennes”, de Caroline Vignal; “Notre Dame”, de Valérie Donzelli ; “Le sel des larmes”, de Philippe Garrel; “Persona Non Grata”, de Roschdy Zem; “Slalom”, de Charlène Favier; “Tout simplement noir”, de Jean-Pascal Zadi e John Wax; “Été 85”, de François Ozon; “La fameuse invasion des ours en Sicile”, de Lorenzo Mattotti; e “Capital in the Twenty-First Century”, documentário de Justin Pemberton e Thomas Piketty.
Na entrevista a seguir, Emmanuelle Boudier detalha ao C7nema a cartografia de geopolíticas audiovisuais que o Varilux simboliza.
Como o cinema brasileiro acolheu o Varilux e de que forma vocês avaliam a permanência do cinema francês no país ao longo do ano, fora do evento? Qual foi a média de público dos últimos anos do evento e qual foi o maior fenómeno do festival, em adesão popular?
O Festival não parou de crescer desde sua criação, há 11 anos, e conquistou o público em todo Brasil, num total acumulado de um milhão de espectadores desde a criação. Na décima edição, em 2019, totalizamos 200.000 espectadores, prova que a relação dos brasileiros com o cinema francês está sempre mais forte. Acreditamos que há um público importante no Brasil, a querer fugir dos padrões norte-americanos, buscando um cinema mais humano, com o qual eles podem se identificar.
Quando adiamos o Festival presencial, em junho, por causa da pandemia, lançamos o festival Varilux Em Casa, que deu acesso gratuito a 50 filmes das seleções anteriores durante quatro meses, para não romper o vínculo entre os filmes franceses e o seu público. Essa ação solidária obteve um fenomenal sucesso, atingindo 666.514 visualizações na plataforma Looke. A iniciativa permitiu, não apenas conservar o contato com nosso público, como também conquistar novos espectadores. O maior fenómeno do festival foi o filme “Intouchables” (“Amigos Improváveis”/ “Intocáveis”), que fez um sucesso na França e no mundo inteiro. Mas tivemos muitos outros sucessos, bem menos esperados, como “Paris Pieds Nus” (“Perdidos em Paris”), por exemplo, o que foi uma prova de que filmes com diretores e atores bem menos conhecidos podem funcionar também com o boca a boca. Ao longo das edições, reparamos que o público brasileiro gosta de comédias e de comédias dramáticas. Parece que o público brasileiro gosta de abordar temáticas sérias com um tom leve e, nesse sentido, se aproxima bastante do público francês.
Que adversidades mais marcaram a feitura do festival neste ano, com a pandemia, com confinamento em França e com toda a operação do Festival Varilux em Casa, no primeiro semestre? Aliás, qual foi o maior sucesso dessa leva de filmes vista em casa?
A operação Festival Varilux Em Casa foi uma ação solidária, para amenizar os dias de quarentena, e também para preservar o vínculo entre os filmes franceses e o seu público. Foi um grande sucesso (660.000 visualizações), mas nunca desistimos de tentar voltar presencialmente às salas, pois acreditamos que nada substitui a experiência única e inigualável de assistir a um filme numa sala escura. Mas pensamos muito antes de voltar às salas, e somente tomamos a decisão após ter estudado cuidadosamente os protocolos propostos pelos cinemas parceiros do festival. Entendemos perfeitamente que pode haver um certo receio a ficar numa sala fechada e respeitamos plenamente a decisão de quem não prestigiar o festival esse ano. Essa pandemia é uma coisa muito séria e grave. Mas achamos indispensável, já que tudo abriu novamente no Brasil, de contribuir para que os cinemas retomem suas atividades. Muito felizmente, a reabertura dos cinemas na França em junho, após o “lockdown“, viabilizou o lançamento de vários filmes, o que nos permitiu selecioná-los para o festival. A primeira dificuldade foi de convencer os patrocinadores, que estavam com um certo receio de atrelar suas marcas a um evento presencial, e também porque eles foram também impactados pelas consequências da Covid-19. Mas graças ao apoio do nosso patrocinador histórico Essilor/Varilux e a entrada de ClubMed e Ingresso.com, assim como o apoio de muitas mídias e fornecedores, conseguimos, apesar de um financiamento bastante reduzido, viabilizar essa edição atípica de 2020. A nossa maior dificuldade agora vai ser convencer o público de que os cinemas são lugares seguros, que respeitam um protocolo estrito. No cinema, as pessoas ficam sentadas, com máscara, não circulam, não falam e não comem. Os ingressos podem ser comprados online. Esperamos que o festival contribua para a retomada dos cinemas no Brasil e para a vida cultural em geral.
Qual era o cenário do Brasil, em relação ao cinema francês, quando vocês chegaram e qual é o cenário atual, para o Varilux 2020?
O Festival Varilux de Cinema Francês não é somente uma mostra de filmes. Ele é também uma ajuda à distribuição dos filmes franceses no Brasil. Todos os filmes selecionados têm um distribuidor brasileiro que sabe que o facto de ter seu filme nesse grande festival não somente minimiza muito seu risco financeiro, mas também maximiza sua mediatização. Vale frisar que o festival deixa a metade da receita das vendas dos ingressos para os exibidores e a outra metade para os distribuidores. Isso com certeza contribuiu para que mais distribuidores brasileiros comprarem mais filmes franceses. O número de espectadores não parou de crescer a cada ano desde a criação do Festival. Na décima edição em 2019, foram quase 200 000 espectadores, prova que a relação dos brasileiros com o cinema francês está sempre mais forte. A capilaridade do Festival, presente em 2019 em 84 cidades do Brasil, contribuiu para conquistar um público novo, que não tinha acesso a esse cinema. Essa abrangência e essa democratização é um grande orgulho nosso.

