Se na vida real a política está cada vez mais enfadonha, cabe à ficção ser a salvação desta ciência histórica.
Sempre que é lançado para televisão um drama político, a comparação com a mestria de Aaron Sorkin é inevitável. É a ele que devemos a série política por excelência, “The West Wing”. Mas o cenário desta nova aposta BBC One, que chega a Portugal via HBO, não tem a política americana como pano de fundo, tem a britânica, mais digna do termo e menos espalhafatosa que a [actual] protagonizada por Donald Trump.
Roadkill é um thriller político dividido em quatro partes, escrito por David Hare e realizado por Michael Keillor – que assina a fantástica “Line of Duty” – e protagonizada por Hugh Laurie muito longe do registo cómico de “Blackadder” ou do complexo genial e misantrópico “House, M.D.” durante 8 temporadas. Para nós, portugueses, ver Laurie a interpretar um político é ainda mais incrível porque as parecenças físicas com o nosso Presidente da República são incontestáveis. Atenção, reforço, as físicas.
Laurie, que brilhou como o calculista traficante de armas em “The Night Manager” interpreta um ser ainda mais asqueroso, um político conservador chamado Peter Laurence. A apresentação da personagem principal é feita à saída de um tribunal, depois de sair ileso de processo por difamação contra um jornal que o acusou de fraude financeira enquanto Ministro dos Transportes. Peter venceu em tribunal porque a jornalista e testemunha principal (Charmian Pepper, interpretada por Sarah Greene) mudou a sua história – por pressão e chantagem – em pleno depoimento.
O cargo de chefe do governo é ocupado pela talentosa, Helen McCrory, que como primeira ministra aparenta ser um misto de Margaret Thatcher e da Rainha.
Apesar de contornar a justiça, a vida de Laurence torna-se cada vez mais envolta num nevoeiro. A trama adensa-se para o político: uma filha ilegítima, uma amante de longa data, intrincadas jogadas governamentais, o desejo de vingança de Pepper e sobretudo a presença de colaboradores próximos, a quem era esperada confidencialidade e ética mas que aparentemente, têm agendas próprias.
“Roadkill” é bem filmado, dotado de um fotografia que lhe dá um ar de reminiscência passada e que apesar de contar uma história contemporânea não massacra o espectador com assuntos com o Brexit. Apesar da estética retro, a série BBC tem como foco assuntos bem contemporâneos e a sua personagem principal, não é a interpretada por Laurie mas sim, um leque de temas como a ganância, a corrupção e consciência, ou neste caso, a falta dela.
Obrigatória para quem gosta de temas políticos e sobretudo dos jogos obscuros, levados a cabo nos seus bastidores.

