Inaugurada na última quarta-feira na web, com a projeção do premiado “A Cordilheira dos Sonhos”, do chileno Patricio Guzmán (troféu L’Oeil d’Or em Cannes, em 2019), a 25ª edição do É Tudo Verdade, o maior festival de documentário das Américas, tem mobilizado a internet no Brasil com as suas reflexões sobre as novas estéticas do Real e com uma leva de longas-metragens de diferentes países. A programação pode ser conferida no site dessa maratona cinéfila documental – www.etudoverdade.com.br – até ao seu encerramento, no dia 4 de outubro, quando será exibido o filme de encerramento, “Wim Wenders, Desperado”, de Andreas Frege e Eric Fiedler. No mesmo dia serão conhecidos os vencedores das competições nacionais e estrangeiras, organizadas pelo diretor do festival, o crítico e curador Amir Labaki. Na entrevista a seguir, Labaki fala ao C7nema sobre as novas tendências da não-ficção.
Num momento do mundo em que plataformas de streaming se impõem como janelas para as estéticas do Real, de que forma as tecnologias de receção, sob as quais elas se constroem, podem afetar a linguagem documental? O que já se vê dessa afetação na seleção do É Tudo Verdade 2020?
Plataformas de streaming são uma das janelas. Provisoriamente, apenas hoje são a principal, dadas as restrições da pandemia. O documentário de longa metragem percorreu um longo percurso, em geral restrito em salas, até o impacto revolucionário do digital, a partir de meados dos anos 1990, conquistando um espaço valioso em salas de cinema do mundo inteiro. Reaberto o circuito, controlada a pandemia, creio que o vigor contemporâneo do cinema não-ficcional retornará à tela grande, com plataformas complementares na TV a cabo, DVD e Blu-ray e serviços de streaming. Creio que o foco privilegiado do streaming é o da narrativa não-ficcional seriada. O modelo narrativo e estético das séries documentais me parece ainda demasiadamente limitado, com a ênfase em histórias policiais. Como contra-exemplo do amplo potencial do documentário em série apresentamos na primeira fase do festival, em março e abril, duas obras-primas de enorme inspiração: “A Herança da Coruja”, de Chris Marker, e “Women Make Film: Um Novo Road Através do Cinema”, de Mark Cousins.
Que tendências de forma, de conteúdo ou de modos/modelos de produção saltam aos olhos no cardápio do festival?
Não posso destacar ainda uma ou mais tendências, diante do facto de ainda estar acontecendo a parte competitiva do É Tudo Verdade. Sendo muito genérico, ainda mais marcante do que a onda atual de hibridização documentário/ficção, chama-me a atenção uma hibridização entre os próprios subgéneros do cinema do real.
De que maneira a noção de “verdade” que ainda dá título ao evento ainda se encaixam num tempo de “fake news”, a julgar pelos filmes selecionados?
O título “É Tudo Verdade” é a um só tempo uma homenagem a Orson Welles (e seu “It’s All True”) e uma ironia. “Fake news” são falsidades criadas e difundidas para instrumentalização no “front” mediático e o documentário, com sua base em narrativas do real, é um dos grandes antídotos a elas.
Que papel um cineasta como Patricio Guzmán, responsável pelo filme de abertura do evento, cumpre hoje no imaginário das Américas e na travessia do É Tudo Verdade?
Guzmán é um dos mais originais cineastas em atividade, pouco importando a divisão documentário/ficção. A sua extensa obra, realizada toda no exílio após a brutal implantação da ditadura militar de Pinochet, amalgama o político e o poético, o autobiográfico e o social, o geográfico e o histórico. Como artista único da América do Sul, pareceu-me natural celebrá-lo por meio da abertura de nossa 25ª. edição com um filme tão delicado e contundente como “A Cordilheira dos Sonhos”.

