Athlete A: sofrimento olímpico

Não é um documentário sobre desporto, é um documentário sobre crime.

(Fotos: Divulgação)

1976. Nadia Comăneci e a Roménia mudaram o rumo da história da Ginástica Olímpica e não pela positiva.
Até então, a ginástica era um desporto para adultas (falamos apenas na modalidade feminina – ponto central do documentário), mulheres já fisicamente bem constituídas. Com Nadia, o desporto atinge um novo modelo: as ginastas começam a ser cada vez mais novas e frágeis. O governo ditatorial de Nicolae Ceauşescu começa a treinar crianças, até à exaustão, num regime quase de treino militar.

O casal Béla e Marta Károlyi são basicamente os mentores desta forma mecanizada de treino, cuja metodologia inumana e brutal, era ignorada perante os estrondosos resultados nas competições mais importantes da modalidade.

É importante esclarecer os leitores que, por muito conhecida que seja a forma despótica como esta modalidade desportiva é tratada na China, em momento algum, o documentário usa ou menciona este país como exemplo. É citada por alto, a violência física, o facto de que as crianças são submetidas a travamento de crescimento e até a interrupção da menstruação é mencionada, mas isso não é o foco do documentário, apesar de nunca ignorar estas “particularidades” físicas.

O sucesso olímpico romeno é notícia no mundo e os EUA não ficam indiferentes. País competitivo como é, aproveitou o facto da deserção do casal vencedor e contratou-os para serem responsáveis pela equipa de elite norte-americana, que produz as campeãs olímpicas.

O modelo de treino obsessivo e militar romeno é copiado e o casal responsável tem liberdade total para usar e gerir as vidas das jovens. Entre afastamento propositado das famílias, a treinos de horas intermináveis, as jovens, cujo cansaço físico se confunde com a exaustão emocional, são entregues a um médico: Larry Nassar.

Este médico, simpático e afável, deambulava entre a rígida equipa técnica e o seu “charme e humanidade” levava as jovens a confiar nele para tratarem as mazelas físicas. Nassar usou o seu cargo e a sua profissão para abusar das jovens menores, com a desculpa do exame físico e das massagens que terminavam com abusos sexuais.

Acusar “Athlete A” de ser uma chamada de atenção sobre os bastidores da ginástica é redutor. O documentário, realizado por Bonni Cohen e Jon Shenk, conta a história de ginastas que denunciaram e que se uniram num processo criminal e judicial contra um predador sexual, e pedófilo – o médico oficial da equipa de ginástica olímpica dos Estados Unidos.

Mas “Athlete A” é igualmente importante ao dar voz e mostrar a importância do jornalismo local, que perante a apatia da investigação policial, a ausência de tomadas de posição por tarde da Federação de Ginástica dos Estados Unidos, usou todos os mecanismos ao seu dispor para dar voz às mulheres e investigou, sem medos, as suas impressionantes histórias.

Em momento algum, este documentário Netflix é vulgar ou sensacionalista. Ao criminoso é dada importância diminuta, semelhante ao desprezo que merece. As entidades que deviam ter salvaguardado as mulheres, na altura crianças ou jovens adultas, e que não o fizeram, não são poupadas, são expostas da forma negra que merecem. A investigação chegou mesmo a denunciar a inércia propositada do FBI e, sobretudo, o seu papel na tentativa de travar a investigação.

As protagonistas são as sobreviventes: as incríveis ginastas Jamie Dantzscher, Rachael Denhollander, Jessica Howard e Maggie Nichols (a verdadeira Atleta A – nome que lhe foi dado pela Federação de Ginástica dos Estados Unidos na investigação que fingiram levar a cabo), entre outras mulheres cujas vozes se juntaram, tiveram visibilidade e voz, graças às reportagens e à insistência do Indianapolis Star. A incrível Simone Biles não faz parte do documentário, apesar de estar bastante omnipresente e no fim o seu envolvimento, como vítima foi confirmado e denunciado pela própria.

Athlete A” foi feito com sensibilidade e gentileza. Apesar dos detalhes horríveis que tinham obrigatoriamente que ser expostos, nunca é gráfico. As sobreviventes não são diminuídas ao trauma, mas sim à persistência e a símbolo da luta que representam.

Se a ginástica de elite, pela sua exigência física, sempre foi envolta em alguns segredos, este documentário não nos descansa e ainda levanta mais dúvidas. Um desporto tão gracioso não devia ser sinónimo de tanto sofrimento.

Últimas