Consagrados mundialmente pela sua ousadia narrativa, considerados dois dos mais originais exercícios narrativos do cinema brasileiro, “Estrada para Ythaca” (2010) e “Inferninho” (2017) trazem nos créditos a marca e a inquietude de Pedro Diógenes, realizador de 36 anos que vai entrar em campo, em França, em julho, na competição oficial do FID Marseille com uma nova experiência: “Pajeú”.
As atrações do evento francês foram anunciados na quinta-feira, com direito a um espaço para Portugal, que está concorrendo com “A Dança do Cipestre”, de Mariana Caló e Francisco Queimada.
Este ano, com a ausência de Cannes, o Festival de Marselha tem um tamanho XL, com 82 produções de 31 países, ocorrendo parcialmente online (no site https://fidmarseille.org/), de 6 a 10 de julho, e integralmente ao vivo, nas salas de sua cidade, de 22 a 26 de julho, tendo a distribuidora paulista Sílvia Cruz, da Vitrine, como jurada.
Há uma onipresença da América Latina no certame, com duas produções argentinas – “Río Turbio”, de Tatiana Mazú González, e “Todo Lo Que Se Olvida Em Um Instante”, de Richard Shpuntoff -, com a chilena Carolina Moscoso e o seu “Visión Nocturna” e dois mexicanos: “Toda La Luz Que Podemos Ver”, de Pablo Escoto Luna, e “Se Escuchan Aullidos”, de Julio Hernández Cordón.
Há competidores da Sérvia, de Israel, do Laos, da Áustria, da Espanha, da Bélgica, da Alemanha, de outras terras francesas e dos EUA. O concorrente brasileiro aposta num híbrido de suspense e documentário.
“Penso que cada filme tem o seu caminho próprio. Cada filme é uma experiência única. O Pajeú surge muito da minha relação com Fortaleza. A cidade de Fortaleza sempre foi cenário, personagem e inspiração para maior parte dos meus filmes. E isso acontece porque Fortaleza desperta em mim sentimentos fortes e contraditórios”, diz Diógenes ao C7nema. “Fortaleza é uma cidade que sempre me surpreende tanto positivamente quanto negativamente. Uma cidade que me encanta e me decepciona ao mesmo tempo. E muito dessas inquietações vem da relação que Fortaleza tem com a memória, ou com a falta de memoria. Fortaleza é uma cidade que cresce e desaparece ao mesmo tempo. E o Riacho Pajeú é um símbolo disso”.

Em “Pajeú”, Maristela (Fátima Muniz) está a ser atormentada por um sonho constante. Ela sonha com uma criatura emergindo das aguas do Riacho Pajeú. A estranheza e insistência do pesadelo começam a atrapalhar o sono e o cotidiano de Maristela que, procurando uma solução para seu problema, inicia uma pesquisa sobre o Riacho, a sua história e o seu desaparecimento. Os pesadelos não param. Sonho e realidade se misturam. Pessoas próximas a Maristela começam a desaparecer, assim como o Pajeú desapareceu. A angústia dela aumenta juntamente com o medo de também desaparecer.
“O riacho desapareceu. Perdeu a força na briga incessante contra a poluição e a especulação imobiliária. E o ponto de partida do filme foi a seguinte inquietação: Se foi apagado da cidade o riacho, responsável pelo nascimento e povoamento de Fortaleza, que outras histórias, pessoas e possíveis cidades também foram e são soterrados a cada dia?”, explica Diógenes.
Há lugar para o Brasil ainda na seleção Flash, de curtas, com “De Vez Em Quando Eu Ardo”, de Carlos Segundo, e nas Séances Spéciales, com “Ontem Havia Coisas Estranhas No Céu”, de Bruno Risas. A seleção de projetos do FID Marseille conta ainda com “Túnel Invisível”, de Lucas Barros e Nicolas Zetune.

Entre outros chamarizes de holofotes do Festival de Marselha, destaca-se a projeção de “Paris Calligrammes”, da germânica Ulrike Ottinger (homenageada em fevereiro na Berlinale), com imagens inéditas da Paris dos anos 1960.
A cineasta e atriz alemã Angela Schanelec é a grande homenageada do ano do FID. Ela ganhou o Urso de Prata de melhor realização em 2019, em Berlim, com “I Was at Home, But…”, um sucesso na Europa.
A fim de amolecer corações cinéfilos e demonstrar rigor também no campo das retrospetivas, o FID vai promover um tributo póstumo ao mítico ator Michel Piccoli, morto no dia 12 de maio, aos 94 anos. Para reviver os maiores momentos da estrela parisiense nas telas, serão apresentados “Má Raça”(1986), de Leos Carax; “Themroc-Regresso às Cavernas” (1973), de Claude Faraldo; “O Charme Discreto da Burguesia” (1972), de Luis Buñuel; e “O Desprezo” (1963), de Jean-Luc Godard.

