Quatro amigas, problemas de relacionamentos, dilemas sexuais, vivência numa cidade cosmopolita… Onde é que já vimos isto?
Vimos ao longo seis temporadas de Sexo e a Cidade que nunca esqueceremos. Infelizmente para Valéria, a comparação é inevitável e prejudicial no ato da sentença final.
Valéria é uma produção da Netflix espanhola, composta por oito episódios, baseados na aventura literária criada por Elísabet Benavent. Como o título indica, Valéria (Diana Gómez) é a personagem principal. É uma escritora que está a passar por uma espécie de bloqueio de inspiração – na arte da escrita e na subsistência do seu casamento. O ponto de “escape” são as três amigas: Lola (Silma López), Carmen (Paula Malia) e Nerea (Teresa Riott).
A dinâmica deste grupo é fotocópia da já mencionada série HBO: temos a escritora, a lésbica, a insegura e a libertina, sendo que, ao longo da temporada, cada uma tem direito a tempo de antena e as suas histórias são contadas.
Apesar do desdobramento das identidades das personagens secundárias, a base do argumento é sempre Val. Desorientada com o bloqueio inspiracional e descontente com a relação com o marido, conhece Victor (Maxi Iglesias), um deslumbrante estranho que vai abalar ainda mais a sua vida. Este novo homem na sua vida, vai desempenhar um duplo sentido: se por um lado a inspira e a faz sentir viva, por outro vai impulsionar uma rutura definitiva na relação com o seu marido.

À medida que a história se desenvolve, Nerea abraça a sua sexualidade numa história interessante sobre ser e pertencer a um grupo LGBTQ+; Carmen inicia um romance no escritório e Lola tem um caso com o homem casado chamado Sergio – a eterna história que começa com um relacionamento estritamente sexual, mas que depressa resvala para algo mais de forma não correspondida.
No todo, há momentos pontuais interessantes: a cidade, a música, algumas cenas de humor e até de romance / sexo mas o todo não funciona. Os momentos de continuidade nem sempre são bem contados, sofrendo mesmo cortes cronológicos e factuais inexplicáveis. Valéria não sai da mediocridade por culpa própria. Vive de forma explícita na sombra de Sexo e a Cidade. É, sem disfarçar, uma tentativa de versão 2020 da mítica série de Darren Star, numa nova cidade e língua.
Uma série feita com boas intenções, apesar de bastante superficiais, dirigida ao público que consumiu As Cinquenta Sombras de Grey.
Tendo em conta que Valéria está no top das séries mais vistas da semana e que há um segundo volume da saga literária, tudo leva a crer que a segunda temporada do projeto espanhol acontecerá. Resta saber se terá a capacidade de elevar a fasquia ou se permanecerá na mediania.

