Brian Dennehy, o adeus ao Javert do cinema pop

Brian Dennehy faleceu aos 81 anos

(Fotos: Divulgação)

Brinca-se, com frequência, da analogia entre “First Blood” (A Fúria do HeróiptRambo: Programado para Matarbr, 1982) e a trama de “Os Miseráveis“, de Victor Hugo (1802-1885), mas a semelhança entre filme e livro são inescrutáveis: em ambos, um lúmpen é perseguido pelo braço armado do Estado apenas por carregar, no corpo, as sequelas de inadequação a um rearranjo histórico da pirâmide social.

Quem delineou essa proximidade, no grande ecrã, foi um ator brilhante, Brian Dennehy (1938-2020), morto sob a alcunha de “vilão de Rambo”. Alcunha que desdenha do seu maior feito no audiovisual: ter redefinido a figura de Willy Loman, anti-herói maior do realismo de Arthur Miller (1915-2005), numa premiada versão para a TV de “A Morte de um Caixeiro Viajante” (“Death of a Salesman”), feita pelo Showtime, em 2000. Foi Kirk Browning que realizou esse telefilme, rodado no Eugene O’Neill Theater, em Nova York. O papel, que outrora, na televisão mesmo, fora de Dustin Hoffman, na década de 1980, revive com todo o esplendor da prosódia teatral milleriana na boca de Dennehy, em uma atuação laureada com o Globo de Ouro. Aliás, foi no âmbito da teledramaturgia que ele mais e melhor pagou as contas de casa, tendo trabalhado em séries – como “Kojak” e “M.A.S.H.” – de 1977 até o fim de sua vida, por falência múltipla dos órgãos.

Muitos telefilmes foram realizados por ele, sobretudo os da franquia “Jack Reed”, sobre o dia a dia de um investigador de Chicago. Porém, mais significativo do que isso foi sua participação em The Belly of an Architect (1987), no qual o seu corpanzil se adequava à figura viril que Peter Greenaway, num momento de apogeu, procurava representar no écrã. A longa-metragem disputou a Palma de Cannes e o desempenho de Dennehy foi elogiado por lá, por esbanjar retidão e um ar de vilão natural.

Mais emblemático do que isso foi a figura decadente que encarnou em “Silverado” (1985). O seu vilão, Cobb, era uma ameaça à altura de uma equipa de heróis formada por Kevin Kline, Scott Glenn, Danny Glover e Kevin Costner, na releitura pop que Lawrence Kasdan propôs para o Oeste dos EUA. Igualmente emblemático foi o tenente Leo McCarthy vivido por ele em “F/X: Efeitos Mortais” (1986), ajudando Bryan Brown a se safar de problemas usando os seus efeitos especiais. São personagens que disputam com o xerife Teasle, o Javert do Valjean Sly, no primeiro “Rambo”, os holofotes de uma carreira pontuada por figuras brutais.

O seu último grande trabalho no cinema foi na releitura de “Assault on Precint 13” filmada por Jean-François Richet, em 2005. Desde então, só pingaram pequenas participações, como a que fez em “Knight of Cups” (2015), o mais subestimado dos filmes recentes de Terrence Malick.

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