Histórias Que Fazem o Coração Crescer: a necessidade ética do final feliz em tempos de intolerância

Menos de uma semana após a premiação da Berlinale, o filme que abriu o festival alemão em 2019 encontra, enfim, escoamento nas salas portuguesas, estreando esta semana: The Kindness of Strangers (Histórias Que Fazem o Coração Crescer), tocante filme da dinamarquesa Lone Scherfig.

(Fotos: Divulgação)

No último dia 14, a longa-metragem marcada por um multiprotagonismo, porém, com maior destaque para Zoe Kazan (no papel de uma mãe de família às voltas com uma relação abusiva), estreou nos EUA. Mas muito tempo passou desde sua primeira projeção, que voltou a ser comentada por conta das sensações da última maratona cinéfila da capital alemã, que deu o Urso de Ouro ao Irão e de “There Is No Evil”. Há um ano, Lone fez o que esteve a seu alcance para abrilhantar o Berlinale Palast com o seu drama de tónus romântico sobre a caridade que se pratica em nome do querer bem. Nele, há um elenco multinacional estelar que junta jovens como Tahar Rahim (de O Profeta) a veteranos como Bill Nighy (de O Amor Acontece). Fazendo da doçura e da solidariedade as suas bandeiras, a mais recente longa-metragem da realizadora de Italiano para principiantes (2000)  e Uma Outra Educação (2009) faz jus a uma premissa de esperança.

Não existe uma bandeira aqui, existem vivências e viver é saber perder e saber ganhar a cada dia. A questão era encontrar um timbre de cor ideal para embalar essa narrativa cheia de reviravoltas na tradição do melodrama“, disse Lone ao C7nema


Lone Scherfig

Pontuado de humor no meio a um rosário de lágrimas, Histórias Que Fazem o Coração Crescer dá à argumentista e atriz americana Zoe Kazan (neta do mítico cineasta Elia Kazan) a chance de depurar o seu talento dramático, após anos a fio nas veredas da comédia. Ela vive Clara, uma mãe de dois meninos que foge do marido, um policia violento. No meio do inverno nova-iorquino, ela encontra amparo no gerente de um restaurante russo (papel de Rahim) e no dono do estabelecimento, vivido por Nighy com seu habitual deboche à moda inglesa. Também há de contar com o altruísmo de uma enfermeira cansada do batente (Andrea Riseborough).

Não existe nenhum discurso político evidente no filme, apenas a ética do humanismo, do respeito ao próximo. A entrega de Zoe foi fundamental para a construção de personagens que se afastam do padrão do super-herói, que são pessoas normais, com angústias bastante similares às da plateia, com necessidade de alguma esperança“, disse Lone em Berlim, onde entrou na luta pelo Urso de Ouro. “O meu esforço ao narrar essa história era procurar alguma forma verossímil de final redentor, algo que, hoje em dia, parece necessário, frente às desatenções do quotidiano“.


Tahar Rahim e Bill Nighy

Aos 36 anos, Zoe – mais conhecida por dramédias como “Ruby Sparks – A namorada perfeita” (2012) – é respeitada nos palcos dos EUA também como dramaturga. Mas na sua visita à Berlinale, ela teve um dia de “nasce uma estrela”, com um desempenho nas raias do intimismo, sem nunca se render às artimanha do folhetim. “Estudei casos de mulheres que convivem com parceiros agressores e enfrentam situações de desrespeito numa microfísica do poder conjugal. Foi um trabalho árduo, mas que trouxe brechas para criar livremente“, disse Zoe, que escreveu o guião do drama Vida selvagem (Wildlife), a primeira longa-metragem assinada pelo ator Paul Dano, exibida no Festival de Cannes de 2018, com muitos elogios para o trabalho dela. “Procuramos o que inquieta”, conclui.

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