O Reflexo do Lago: um mergulho nas contradições económicas da Amazónia

(Fotos: Divulgação)

Respeitado no cenário dos festivais brasileiros por curtas-metragens como “Matinta” (2010) e “No Movimento da Fé” (2013), Fernando Segtowick abriu as torneiras das contradições económicas da Amazónia na Berlinale, regando os ecrãs com “O Reflexo do Lago“, uma estreia explosiva na longa-metragem.

O seu foco é a história da construção da Central Hidroelétrica de Tucuruí, em Belém do Pará, no tempo da ditadura militar (1964-1985). A reserva foi considerada um marco da engenharia mundial de barragens. A partir da atual situação da usina nos dias de hoje, Segtowick faz uma radiografia dos descasos em relação à população que deveria ser mais beneficiada com a energia ali produzida. O projeto inspirou-se no livro de fotografia “O Lago do Esquecimento”, de Paula Sampaio, e dele estabeleceu uma linguagem de reflexão na linha autoral do seu realizador. Na entrevista a seguir, o cineasta faz um balanço das inquietações do seu estado, da sua região e das políticas ambientais no Brasil.

O que Tucuruvi representa para as populações amazónicas como um símbolo, seja de exploração, seja de um progresso não realizado?

O filme parte muito da questão de que imagem a gente normalmente espera de um filme da Amazónia e, principalmente, da sua população. O filme parte de uma questão teoricamente do passado, o Tucuruí, que teve uma hidroelétrica construída nos anos 1970/1980, para discutir hoje questões sobre a manutenção desse lugar, seja de forma natural ou do que se espera dele. Esse filme parte das questões de sobre como a gente olha para esse lugar e como pensamos nele dentro do mundo.

De que maneira a sociedade amazónica hoje lida com a questão da exploração hídrica?

Acredito que as pessoas ainda olhem para a Amazónia, primeiramente, como um lugar com poucas pessoas e sempre vista de uma forma muito exótica. Elas param pouco para perceber a complexidade dessas populações, que lidam com essa floresta de maneira sábia há muitos anos, mantendo isso e usando com um impacto muito menor do que outras questões.

De que maneira a vertente documental do seu cinema reflete a destruição das tradições e dos patrimónios da Amazónia?

Ainda existem outros projetos que estão sempre cercando o lugar. A visão que a maioria das pessoas possui desses lugares é de que você tem esses projetos, mas que eles trazem poucos benefícios para quem mora ali perto. Trazem benefícios para o resto do Brasil, mas as pessoas mais próximas são as mais impactadas e elas não recebem benefício algum. Não tem como não ser conflituosa a chegada de uma grande capital nesse lugar. E não tem como lidar com populações com outras culturas que não seja trabalhar num grande projeto. Como um documentarista da região, chama-me muita atenção isso: qualquer construção dessa vai provocar um grande impacto.


A equipa do filme em Berlim

Qual é o papel político desse misto de investigação patrimonial, etnográfica e ética que seu documentário faz da memória amazónica?

O filme é muito político nesse sentido. Muitas pessoas podem esperar uma pegada de documentário como um filme ativista e, talvez, ele não tenha a chave nesse sentido. Mas ele questiona bastante as coisas com outros caminhos narrativos e estéticos. Acho muito interessante para mim, como realizador, olhar para esse território desta maneira, mas a gente vive várias questões políticas dessa região no Brasil. No último ano, a gente percebeu esse afrouxamento das organizações e instituições de proteção e controle. Estamos vendo uma escalada muito maior da destruição do que teve nos últimos anos. Acho que o filme traz esse questionamento. Tucuruí não é um caso isolado. Tucuruí está conectado com várias coisas que acontecem em outros projetos na Amazônia e no Mundo. O meio ambiente não é um departamento isolado, ele está aqui em Berlim. Estamos num lugar que consome produtos da Amazónia e também tem responsabilidade com o que acontece lá. Falamos muito sobre periferia e grande centro. Eu acho que tudo está no centro, está todo mundo em um lugar só. É importante levar as pessoas nessa jornada dentro do barco do Seu Manduca para podermos entender que estamos um do lado do outro. Acho que estamos falando o tempo todo de ciclos de desenvolvimento. Teve a castanha, a borracha, a questão hídrica, a mineração, o agronegócio, a soja. O tempo todo a Amazôónia está passando por ciclos de desenvolvimento voltados para a população de fora da região. “O Reflexo do Lago” trata muito disso.

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