Dez faróis da Berlinale 2020

(Fotos: Divulgação)

Arrancada de braços dados com narrativas populares, como “Bora Lá” (“Onward”/ “Dois Irmãos: Uma Jornada Fantásticabr) e “My Salinger Year“, a Berlinale não vai abrir mão da sua vocação política de contestação. Vejam, a seguir os dez melhores filmes do evento até aqui (25/02):

Undine, de Christian Petzold

Dois anos depois de “Em Trânsito“, o maior cineasta alemão dos dias atuais esbanja domínio na realização ao narrar uma história de amor que evoca a mitologia das sereias. Na trama, a historiadora Undine (Paula Beer) começa um romance com o escafandrista Christoph (Franz Rogowski) depois de sofrer uma desilusão amorosa. Mas vai arrastar o seu passado consigo, afogando o rapaz em memórias que fazem um paralelo com a História da própria capital da Alemanha.

Sibéria, de Abel Ferrara

Com ecos de “Simão do Deserto” mesclado a uma experimentação de luz, com tons de vermelho, magenta e branco de neve, o realizador de “Bad Lieutenant” dá-nos o seu melhor filme em quase três décadas, apoiando-se na entrega radical de Willem Dafoe. Fiel à perceção de que “todos os filmes com múltiplas camadas são políticos“, Dafoe vive Clint, o dono de um bar numa imensidão nevada que vai se embrenhar numa cruzada de autoconhecimento espiritual em lugares de exílio.

Hope, de Maria Sodahl

Nesta produção norueguesa da diretora de “Limbo” (2010), um casal (Andrea Bræin Hovig e Stellan Skarsgård) enfrenta um Natal assolado pela dor depois dela desenvolver um tumor cerebral. A fotografia é do chileno Manuel Alberto Claro, parceiro habitual de Lars von Trier.

Nardjes A., de Karim Aïnouz

Ao cruzar o seu olhar com uma jovem ativista inflamada, no meio da Revolução dos Sorrisos, na Argélia, em 2019, o realizaddor de “A Vida Invisível” aplica um dos seus filtros autorais: a atenção ao transbordamento de quem é visto como desviante. Nardjes é uma ferida aberta na moral de uma nação inquieta. Uma ferida de onde brotam as flores de uma juventude que não se deixa calar.

Black Milk, de Uisenma Borchu

Neste melodrama egresso da Mongólia, pilotado por uma encenadora de teatro de reputação nos palcos, duas irmãs reencontram-se para um acerto de contas acerca das tradições da sua terra natal.

Kill it and leave this town, de Mariusz Wilczynski

Usando as tradicionais técnicas de desenho animado, o cineasta da Polónia faz uma crónica do desamparo numa cidadezinha fria, indo da personificação de animais (com patos falantes) a um degolar de pessoas em miniatura, a fim de mostrar a destruição dos afetos. Uma das imagens mais tocantes de todo o festival: uma conversa entre um casal na mesa de uma morgue, visto do ponto de vista de um corpo exumado.

After the Crossing, de Joël Richmond Mathieu Akafou

O cineasta estreante da Costa do Marfim traz ao Festival de Berlim o que promete ser o mais potente relato sobre a resiliência dos refugiados.

Time to Hunt, de de Yoon Sung-hyun

A trama acompanha um ex-presidiário que, ao sair da prisão, é convencido pelos seus amigos a voltar ao mundo do crime e assaltar um casino. A expetativa em torno dele, alimentada por seu trailer movimentado, está associada à atual febre em torno do cinema da Coreia do Sul, catapultado após os quatro Oscars conquistados por “Parasita”, no último dia 9.

Pinóquio, de Matteo Garrone

Todos sabemos a história de trás pra frente, mas o responsável por “Dogman” (2018) filma a fábula sobre a educação sentimental de uma criança com um pé fincado no grotesco de uma forma que parece algo nova, vívida. E o Geppetto de Roberto Benigni é uma reinvenção de uma lenda do cinema.

Kokon, de Leonie Krippendorff

Apoiada numa câmara epilética, a jovem cineasta berlinense desnuda a região de Kreuzberg ao acompanhar o desabrochar dos desejos de uma adolescente cercada de amigos com as hormonas à flor da pele. Maya Postepski contribui na música, que traduz os sufocos da primavera da vida.

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