Hong Sang-soo de regresso à Berlinale
Laureado com 47 prémios internacionais ao longo de 24 anos de uma prolífica carreira hoje respeitada como uma das mais coesas pela crítica mundial, o sul-coreano Hong Sang-soo, de 59 anos, fez jus à tradição do seu país, que só fez crescer em prestígio, no planisfério cinéfilo, ao colocar a Berlinale no bolso.
Cozido num banho-maria que contagia, The Woman Who Ran (Domangchin yeoja, no original), nova longa-metragem do realizador de Hahaha (2010), é, hoje, o filme do coração do festival alemão, daqueles “feel good movies” que, sem concessões a cartilhas populares, leva um bem-estar à alma no seu estudo sobre amizade.
Parceira de vida e da obra do cineasta, a premiada atriz Kim Ninhee é Gamhee, mulher de um tradutor que, num dia sem a companhia do marido, vai visitar amigas. Comendo, bebendo, rindo e trocando confidências (numa cena, uma mulher pergunta: ‘Você ama o seu marido?‘ e ela dá um riso azedo e um tempo de silêncio como resposta), Gamhee disseca a lógica mais redentora do companheirismo, encarando uma solidão existencial.
“Abro este filme com um plano de umas galinhas a ciscar porque encontrei na imagem dessas aves a catar grão um fragmento de transcendência que me chamou a atenção. Não sei explicar sobre o que essa imagem simboliza. Como também não sei dar explicações mais genéricas sobre as atitudes das personagens. Eu não trabalho com definições ou parâmetros. Apenas sigo sentimentos“, explicou o cineasta ao C7nema.
Logo no início da longa metragem, talvez a mais divertida da sua trajetória recente, um homem bate na porta da casa onde Gamhee está a beber com as amigas. A dona da casa abre e escuta o vizinho a reclamar do facto dela alimentar os gatos que por ali passam. Segundo ele, os felinos são predadores. A maneira como a jovem usa retórica e silogismos, rebatendo os argumentos do sujeito, levou Berlim às gargalhadas e a uma salva de aplausos. “Detetei o gato que queria usar, concentrei a câmara nele e filmei o que precisava. Eu resolvo a montagem dos filmes já na rodagem. Já sei o que entra e o que sai”, explicou Sang-soo. “Este filme, por exemplo, montei num dia… talvez dois. Depois parei uma semana, distanciando-me do material, e voltei a ele por mais um dia, algum tempo depois. E aí encontrei a medida“.

Kokon
Nas mostras paralelas da Berlinale, no canteiro infantojuvenil e adolescente chamado Geração, um filme alemão impõe-se pela sua enganharia narrativa precisa: Kokon, de Leonie Krippendorff. Apoiada numa câmara epilética, a jovem realizadora berlinense desnuda a região de Kreuzberg ao acompanhar o desabrochar dos desejos de uma adolescente cercada de amigos com as hormonas à flor da pele. Maya Postepski assina a banda sonora, que traduz os sufocos da primavera da vida. A premiação será entregue no dia 29 e, até o momento, Abel Ferrara, com seu Sibéria, segue sendo adulado aqui, merecidamente, graças à sua jornada espiritual.
Nesta quarta-feira, a grande expetativa das seções paralelas à competição voltam-se para o Brasil da floresta retratado em Luz nos Trópicos, de Paula Gaitán, que o seu filho, Eryk Rocha (dono do troféu L’Oeil d’Or de Cannes, por Cinema Novo) produziu.
É uma viagem cosmológica à selva a partir de duas narrativas, separadas pelo tempo, que se entrelaçam. “Saímos atrás do lugar que ocupam os povos ameríndios no Brasil. O filme evoca esse lugar de memória, de vestígios, mas também do silêncio“, explica Paula ao C7nema. “Estamos em busca de uma memória que foi apagada“.
No dia 1 de março a Berlinale chega ao fim.

