Willem Dafoe chega à Berlinale com “Sibéria“
Dois anos depois de conquistar o Urso de Ouro Honorário pelo conjunto da sua obra (prémio a ser este ano confiado à atriz Helen Mirren), Willem Dafoe, norte-americano nascido há 64 anos em Appleton, Wisconsin, vai passar pela Berlinale esta segunda-feira à frente da jornada de autodescoberta “Sibéria“, ajudando o seu habitual parceiro, Abel Ferrara, a desafiar a sua notória ousadia. Há quem diga que vem por aí a obra-prima do cineasta, algo capaz de dar a Dafoe mais um prémio: o 80º de uma carreira iniciada em 1980.
“Ferrara é alguém a quem volto sempre, não apenas pela amizade, mas pelo grau de troca que alcançamos na conceção de pessoas que nos representam, nas ausências ou na presença de sentimentos muito profundos“, disse Dafoe ao C7nema em Cannes, em maio, quando ele e Abel deram um “olé” na elegância ao explorar os demónios da arte dramática com “Tommaso” (2019). “Seguimos na arte para despertar aquilo que parecia silenciado“.
A sua chegada à capital alemã coincide com o relançamento local de “Mississippi em Chamas” (1987), de Alan Parker, que acaba de sair em DVD e Blu-Ray, em 4K. Ainda em cartaz em vários países (como em Portugal e Brasil) com “O Farol” (Prémio da Crítica na Quinzena de Cannes), pelo qual ganhou o Independent Spirit Award, no início do mês, Dafoe tem tudo para ser o melhor ator da Berlinale com “Siberia“, sobretudo depois do trailer do filme ser divulgado. As imagens indicam uma viagem de busca espiritual.

Sibéria
Um dos atores mais prolíficos do cinema nos EUA, Dafoe ampliou o seu prestígio ao viver o Jesus de “A Última Tentação de Cristo” (1988), sob a bênção de Martin Scorsese, ocupando um papel delineado para Aidan Quinn. “Filmamos em Marrocos e foi algo redentor viver o Cristo de Scorsese, como protagonista, numa época em que estava habituado a ser o número dois. Fiz uma longa trajetória como ator de apoio, o amigo do protagonista. Nessa posição, aprendi muito sobre a parceria com os colegas e sobre a maneira de procurar a atenção do público sem desrespeitar os meus companheiros. A minha experiência no Brasil, em 2014, com ‘Meu Amigo Hindu’, tendo a sabedoria de Hector Babenco ao meu lado, fez a diferença. Foi um papel de Vida, enquanto se falava sobre a Morte“, disse Dafoe ao C7nema, na Croisette.
Este ano, Dafoe será visto em “A Última Coisa que Ele Queria“, de Dee Rees, e em “The French Dispatch“, do seu habitual parceiro Wes Anderson. “Já fui vilão do Homem-Aranha, vampiro, assassino, amante, e secundário de um filme de David Lynch. Fiz e faço tudo o que tem um guião digno, vivo. Tenho trabalhado com muitos cineastas de verve autoral, de diferentes campos da atuação, seja alguém mais fabular como Wes Anderson“, disse Dafoe, na sua passagem ao Brasil, em 2016. “A atuação oferece-me diferentes formas de olhar o mundo. Até porque, filmei em muitos locais. Tento sempre trazer traços de experiências pessoais para cada novo papel, mas com o cuidado de não me repetir“.

