“Todos os Mortos” já estreou na Berlinale
Distinguido com o Urso de Ouro em 1998, com “Central do Brasil“, e em 2008, com “Tropa de Elite”, o cinema brasileiro pode levar a mais cobiçada estatueta do Festival de Berlim de novo para casa, nesta 70ª edição do evento, à custa da boa repercussão de “Todos os Mortos”. O seu elenco feminino tem gerado unanimidade por aqui, com alguns a apontarem para um prémio coletivo de interpretação para as suas atrizes.
Fazem parte da trupe Mawusi Tulani (em brilhante forma), Carolina Bianchi, Alaíde Costa, Thaia Perez, Andrea Marquee, Gilda Nomacce e Clarissa Kiste (que está no seu apogeu cénico). A realização é da dupla Caetano Gotardo (“O que se move”) e Marco Dutra (“Quando eu era vivo”), que apostou numa equipa maioritariamente formada por mulheres, tendo a produtora Sara Silveira como uma das responsáveis pelo leme da nau.
“A nossa equipa é maioritariamente feminina e os meninos sempre tiveram uma escuta muito grande. Todas tivemos escuta no set“, disse Clarissa, no seu melhor desempenho nas telas, no papel da freira Maria.
Na caça ao Urso, “Todos os Mortos” impõe-se como uma minuciosa cartografia da exclusão no meio da decadência de uma aristocracia cafeeira no Brasil do fim dos 1800, início dos 1900. A intolerância religiosa contra os credos de matriz africana é um dos focos, que contou com a consultoria de Salloma Salomão, também autor da banda-sonora.
“É possível perceber uma tensão entre as formas musicais que o filme evoca. Há mais diálogos que revelam tensão ao mostrar a forma como a sociedade brasileira lidou com elemento estrangeiros, seja da Europa ou da África“, diz Salloma.
Fala-se de modo muito elogioso sobre a força trágica do guião escrito por Gotardo e Dutra, que aborda a realidade da São Paulo no apagar das luzes do século XIX após o fim da escravidão, sob o ponto de vista de diferentes mulheres.

Carolina Bianchi, Thomás Aquino
“Este filme envolve 700 pessoas trabalhando de formas diretas e indiretas. Um filme é um trabalho social, educacional. Os meninos, Marco e Cateano, e a nossa montadora, Juliana Rojas, estão juntos há muito tempo, buscando um caminho“, bradou Sara Silveira, que já produziu filmes de culto como “As Boas Maneiras” (2017). “Enquanto eu existir como mulher, eles vão ter os filmes que eu faço. Não preciso de armas, preciso de força. Nós vamos resistir e vamos vencer. Estamos brigando pela liberdade e pela democracia“.
A trama decorre na São Paulo de 1899, onde os fantasmas do passado ainda caminham entre os vivos, quizilando as mulheres da família Soares. Elas são antigas proprietárias de terra, que tentam se agarrar ao que resta de seus privilégios. Para Iná Nascimento (papel de Mawusi), que viveu durante muito tempo escravizada, a luta para reunir os seus entes queridos num mundo hostil leva-a a questionar as suas próprias vontades. Entre o passado conturbado do Brasil e o seu presente fraturado, cheio de intolerância, estas mulheres tentam construir um futuro próprio.

Thaia Perez, Agyei Augusto, Mawusi Tulani
“Mais do que estar aqui em competição é o fcato de termos 19 brasileiros aqui e 12 em Roterdão. É importante os filmes brasileiros existirem no Brasil… e filmes muito diferentes entre si. Estamos aqui como parte de um conjunto de uma produção que veio ganhando força, mas que está sendo atacado violentamente“, diz Gotardo.
A Berlinale segue até 1 de março. No dia 29 serão conhecidos os vencedores. O mais potente dos concorrentes vistos até aqui é o alemão “Undine“, de Christian Petzold, que esbanja domínio na realização ao narrar uma história de amor que evoca a mitologia das sereias. No filme, a historiadora Undine (Paula Beer) começa um romance com o escafandrista Christoph (Franz Rogowski) depois de sofrer uma desilusão amorosa. Mas ela vai arrastar o passado consigo, afogando o rapaz em memórias que fazem um paralelo com a História da própria capital da Alemanha.

