Recém-saído do adocicado western “First Cow‘”, o C7nema ainda não sabe o que mais virá de bom na Berlinale, mas “Time to Hunt”, da imparável Coreia do Sul, já valeu a vinda ao festival.
É difícil encontrar um filme com voltagem mais alta do que este feérico thriller assinado por Yoon Sung-hyun, cuja projeção abarrotou as salas aqui no 70.º Festival de Berlim. As suas sequências de perseguições desafiam numerosas leis da Física e é uma narrativa que desafia os padrões da adrenalina elevados por Hollywood dos anos 1980 para cá. A trama acompanha um ex-presidiário que, ao sair da prisão, é convencido pelos seus amigos a voltar ao mundo do crime e a assaltar um casino. A expetativa em torno dele, alimentada pelo trailer movimentado, está associada à atual febre em torno do cinema da Coreia do Sul, catapultado após os quatro Oscars conquistados por “Parasita“, no último dia 9. A figura do assassino Han (Park Hae-soo) é a grande personagem desta maratona cinéfila.
“Construímos Han como se fosse o camião filmado por Spielberg em ‘Duel’ ou o robô de “Terminator”. É uma máquina de matar que não requer uma motivação na sua psicopatia programada“, explica Sung-hyun, cujo valor subiu depois da projeção por aqui. “O cinema de ação é mais do que violência. É um sentimento de vertigem“.
Antes de a Coreia brilhar pelas telas germânicas, o bom e velho western amoleceu corações pelas lentes de Kelly Reichardt, que citou a grande cineasta Ida Lupino como um dos pilares do filão. “Esse é um género que sempre foi dominado por homens brancos. Eu tentei abordá-lo em ‘First Cow’ a partir de personagens telúricas, que têm um dia a dia ligado à luta pela sobrevivência“, disse Kelly ao C7nema.

First Cow
Há várias várias mulheres realizadoras na luta pelo Urso de Ouro da Berlinale.70, entre as quais Kelly, a atual estrela da cena indie dos Estados Unidos, respeitada por filmes como “Night Moves” (2013). E ela foi jurada em Cannes, em 2019. A cineasa chegou à capital alemã para ganhar: “First Cow” foi calorosamente aplaudido. Na conversa com a imprensa, ela estava ao lado do ator Orion Lee. Ele é um dos protagonistas deste western sem “bang-bang“: o imigrante chinês King-lu, que trava uma relação de trabalho e amizade com o comerciante de peles Cookie (John Magaro). Os dois passam a fazer um exótico bolo usando o leite roubado da vaca de um inglês rico (Tony Jones).
“O western tem um código tão forte que faz tudo parecer já visto, já batido. O meu desafio era explorar aqueles códigos familiares sob perspetivas que ainda não foram vividas, como as relações de afeto entre amigos“, disse Kelly. “Esta mitologia passa pela História dos EUA. E é necessário revermos as outras personagens do nosso passado“.
A Berlinale termina no dia 1 de março.

