O Festival de Berlim arranca no dia 20 de fevereiro e prossegue até 1 de março
Embora esteja com a cabeça nos preparativos para a caça ao Urso de Ouro de 2020, cuja largada será dada esta quinta-feira, com a projeção do italiano Volevo nascondermi, de Giorgio Diritti (o primeiro dos 18 concorrentes ao prémio a ser exibido), a Berlinale abriu a exceção para a sua memória permanecer no passado e procurar entender o desaparecimento de um antigo competidor: o inglês Alan Parker.
O lançamento em cópias digitais (em DVD e Blu-Ray) do terror “Angel Heart – Nas Portas do Inferno” (“Coração Satânico” no Brasil), de 1987, e do thriller “Mississipi Burning” (“Mississippi em Chamas”, indicado ao Urso alemão em 1989), resgatam o legado do cineasta, afastado dos ecrãs desde 2003. Naquela data, o cineasta britânico, hoje com 76 anos, veio à maratona cinéfila germânica com “Inocente ou Culpado?” (“The Life of David Gale”), cujo fracasso retumbante parece ter posto uma pedra na sua invejável carreira. Desde a malfadada trajetória da saga de Gale pelo circuito internacional, o artista por trás de filmes de culto dos anos 1980, como “O Expresso da Meia-Noite (1978), virou uma nota de rodapé nos livros de História sobre as décadas de 1970 e 80. Nem mesmo a sua fase final, com iguarias como “Evita” (1996), é lembrada com o devido crédito, como demonstram as reportagens sobre o regresso em 4k do horripilante filme noir com Mickey Rourke e Robert De Niro (este no papel do Diabo).
“O mundo ficou algo muito antisséptico e analgésico no cinema atual, apostando em redenção mesmo quando se propõe a refletir sobre a realidade. Redenção não é algo que me interessa, pois não tenho apreço pela calmaria, apenas pelo aguaceiro, pela tormenta. Sou um artista que mira nas sombras alheias“, disse Parker numa entrevista de 2008, quando esteve no Brasil para participar de um festival na Amazónia, como jurado. “A calamidade é o que move a narrativa ocidental. E não é fácil conseguir financiamento para retratar o que não é calmaria quando você não quer ficar refém de megaorçamentos e de franquias. Sou um cineasta ligado a uma zona intermediária da indústria, relativa à busca por filmes de algum porte comercial, mas feitos com seriedade suficiente para provocar os adultos. Isso já não interessa mais tanto quanto nos tempos em que eu construí meu repertório de olhar”.

Rourke, De Niro e Parker
Já estão à vendas as cópias alemãs dos DVDs e Blu-Rays dos filmes de Parker, com destaque para “Mississippi em Chamas”, uma vez que Gene Hackman foi premiado na Berlinale pelo seu desempenho na longa-metragem, que atacava o racismo. “Eu transitei por géneros muito diversos, mas sempre imprimi dor em todos eles“, disse Parker, cujas obras do passado estarão em debate nas rodas sobre o futuro dos suportes digitais no European Film Market da Berlinale.
O filme de abertura do evento, em sessão fora de concurso, vai ser “My Salinger Year”, de Philip Falardeau, exibido na manhã de quinta. Logo nas suas primeira horas, o festival assiste ao novo trabalho do artesão chinês Jia Zhangke: “Swimming Out Till The Sea Turns Blue”. O filme é um mergulho documental de Jia num encontro literário em Shanxi. É uma investigação do realizador de “Se as Montanhas se Afastam” (2015) sobre os escritores da sua pátria, na sua relação com palavras e imagens.
Filmes em competição na Berlinale:
“First Cow”, de Kelly Reichardt (EUA)
“Berlin Alexanderplatz”, de Burhan Qurbani (Alemanha)
“Schwesterlein” (“My Little Sister”), de Stéphanie Chuat e Véronique Reymond (Suíça)
“Siberia”, de Abel Ferrara (EUA)
“Le Sel des Larmes”, de Philippe Garrel (França)
“The roads not taken”, de Sally Potter (Reino Unido)
“Undine”, de Christian Petzold (Alemanha)
“The Woman Who Ran”, de Hong Sangsoo (Coreia do Sul)
“El prófugo”, de Natalia Meta (Argentina)
“Favolacce (Bad Tales)”, de Damiano & Fabio D’Innocenzo (Itália)
“Effacer l’historique”, de Benoît Delépine e Gustave Kervern (França)
“Todos os mortos”, de Marco Dutra e Caetano Gotardo (Brasil)
“DAU. Natasha”, de Ilya Khrzhanovskiy e Jekaterina Oertel (Ucrânia)
“Sheytan vojud nadarad” (“There Is No Evil”), de Mohammad Rasoulof (Irã)
“Irradiés” (“Irridiated”), de Rithy Pahn (Camboja)
“Never rarely sometimes always”, de Eliza Hittman (EUA)
“Rizi (Days)”, de Tsai Ming-liang (Taiwan)
“Volevo nascondermi”, de Giorgio Diritti (Itália)

