A Berlinale decorre de 20 de fevereiro a 1 de março
Entre os 18 títulos em competição pelo Urso de Ouro de 2020, há um título que atiça o apetite da imprensa internacional e até de olheiros de Hollywood numa análise prévia do que a 70ª edição da Berlinale tem a oferecer: a aposta é The Roads Not Taken e o motivo de sua atual imponência é seu elenco monumental.
Elle Fanning, Javier Bardem, Salma Hayek e Laura Linney estrelam este drama britânico dirigido por Sally Potter. O nome dela é respeitado desde a década de 1990 por Orlando (1992), maior sucesso de sua trajetória nas telas, que inclui muitos títulos de respeito. Dado o currículo da cineasta inglesa de 70 anos, realizadora de cults como The tango lesson (1997) e Ginger & Rosa (2012), é fácil perceber por que atores de peso toparam trabalhar com ela. Não se sabe ao certo a duração do projeto, mas se espera algo curto. “Nos últimos tempos, os filmes andam longos demais para tão pouco a dizer. Ser económico é uma virtude quando se lida com dramaturgia pois o tempo da narrativa, que espelha o tempo da vida, não pode ser perdido. Diante de uma narrativa condensada, o público não perde o seu foco, nos personagens e naquilo de político que eles representam“, disse Sally ao C7nema, ao lançar A festa, em 2017, também no Festival de Berlim.

A Festa
Conseguir o “sim” da nata do cinema europeu e do americano, sobretudo de medalhões tipo Bardem é uma habilidade que Sally se orgulha de ter. Em The Roads Not Taken, a estrela espanhola vive o pai de Elle Fanning, uma jovem que precisadomar as angústias do verbo “amadurecer”. Cabe a ele compartilhar com ela experiências das diferentes decisões, certas e erradas, que teve na vida. As decisões da sua realziadora partiram de uma reflexão sobre meios de combater a desatenção e a intolerância. “Vira e mexe, alguma liderança de ativismo feminista vem procurar-e a dizer que fui uma pioneira entre as cineastas europeias. Sinceramente, eu nem penso nisso, embora respeite esse reconhecimento. Eu sempre pude me impor sem encarar problemas do sexismo, pois o tipo de filme que sempre fiz é muito diferenciado das cartilhas hegemónicas da indústria. O que faço é guerrilha, são experiências“, disse a cineasta, na Alemanha. “Criar na periferia da arte dá-te alguma vantagem: a igualdade de direitos é uma delas, pois quem milita no mesmo terreno artístico em que eu vivo sabe as dificuldades de poder se fazer ver e ouvir no circuito. Agora, é óbvio que já sofri alguma forma de intolerância sexista. Nos anos 1970, quando eu comecei a filmar, as mulheres que experimentavam o sucesso profissional eram vistas como exemplo de fracasso pessoal. Nunca me senti fracassada. Estive ocupada demasiado a lutar em prol de causas humanistas quando estavam a falar de mim, pelas costas. Mas… Essa luta das mulheres realizadoras passa por algo importante: não é só um aumento quantitativo de quadros profissionais, é a mudança de discurso, é a mudança de olhar“.
Cresce a cada ano o numero de mulheres realizadoras no rol de concorrentes ao Urso dourado. Sally hoje celebra o novo coro de vozes femininas nos ecrãs. “Temos ótimas realizadoras no cinema e no teatro. Mas têm, ao largo do que pode me impressionar, a manutenção da ferrugem nas engrenagens da indústria: se eu, como mulher, tive a chance de fazer uns nove filmes, em cinco décadas, os meus conterrâneos ingleses homens tiveram, nesse mesmo período, oportunidade e apoio para fazer uns 20, 30 filmes. Veja, não quero soar contraditória: o sexismo direto, agressivo, não encarei, por pertencer a uma ala do cinema mais autoral, experimental… mas o preconceito de género não deixou de resvalar na minha trajetória“, diz.

Orlando
A cada novo filme, o sucesso de Orlando, icónica discussão da condição feminina, volta aos ouvidos de Sally. Aquele filme rendeu-lhe quilos de prémios, a começar pelo Festival de Veneza 1992. “Essa fita só me deu alegrias, mas não me trouxe rótulos: o que possa existir de feminista nele veio da literatura de Virginia Woolf, de quem procurei uma reflexão sobre a representação da condição humana, que transcende o sexo“, diz a cineasta. “A Inglaterra hoje está a mudar e de um modo controverso quando se pensa nas contradições sociais. O cinema precisa falar dessas incongruências, da maneira que puder“.

