Quem hoje se delicia com a escrita virulenta de Ernesto Garratt em romances recém-lançados, mas já com um certo culto da América Latina hispânica como Allegados e Casa Propia – nos quais vampiros são metáforas da exploração neoliberal no meio de uma dura relação entre mãe e filho -, está, por tabela, experimentando um legado cinéfilo dos mais ricos no seu continente.

Ele é uma autoridade no Chile quando o assunto é o registo jornalístico e a análise crítica das longas-metragens que circulam por sua pátria, ampliando a circulação de ideias do jornal El Mercurio. Entre os muitos áses da realização entrevistados pelo autor chileno de 47 anos – hoje o mais respeitado crítico e repórter de cinema do seu país -, o francês Michel Gondry teve, por um vasto tempo, um carinho especial no seu coração e nos seus escritos.
Hoje um romancista de prestígio, o repórter sul-americano e o C7nema participaram, juntos, em 2012, numa mesa redonda, no início da Quinzena dos Realizadores de Cannes, para falar com Gondry sobre The We and the I. O apreço de Garratt pela estética ultrarromântica daquele cineasta, expressa especialmente em O Despertar da Mente (“Eternal Sunshine of the Spotless Mind”, 2004), levou o jornalista a usar uma foto sua com Michel como ícone das suas redes sociais, durante um bom tempo. Mas o leque de cineastas com quem Garratt conversou é invejável, indo de James Mangold a Lars von Trier. Aliás, ele foi um dos primeiros a entrevistar o dinamarquês após a sua infeliz declaração sobre Hitler, em Cannes, em 2011. Não por acaso, Thierry Frémaux convidou Ernesto para escrever um capítulo do livro que comemorava os 70 anos da cinefilia da Croisette, Ces Années-Là, publicação composta por setenta crónicas dedicadas a cada ano do Festival de Cinema de Cannes. O capítulo dele foi dedicado à edição de 1995, ano em que o júri cannoise, presidido pela atriz Jeanne Moreau, atribuiu a Palma de Ouro ao cineasta sérvio Emir Kusturica, por Underground.
Há um pouco das alegorias “kusturiquianas” na ficção de Garratt. Na entrevista a seguir, ele fala como as atuais crises morais do Chile resvalam (e arejam) a sua narrativa de invenção, oferecendo um gás ao seu trabalho na crítica.

Qual é o Chile que se materializa na sua prosa?
O Chile dos meus dois romances (“Allegados” e “Casa Propia”). É um Chile que em geral não aparece na literatura. É o Chile das misérias, dos sem-abrigo, dos pobres que o modelo neoliberal trata a todo custo de esconder da vista. Para escrever sobre essas pessoas, usei a minha própria experiência como um jovem dos anos 1980 que cresceu na pobreza. Quer dizer, ambos os romances são um pouco de autoficção, ambos baseados nas minhas próprias dificuldades na pobreza, mas, ao mesmo tempo, muito do que conto é ficção. Embora vários leitores tenham chorado de tristeza depois de lerem os livros, digo sempre que minha vida foi muito pior. Nos romances, eu melhorei muitas coisas. Que melhor fortuna do que escrever a própria história?
De que maneira a sua trajetória como crítico de cinema e como jornalista de cinema, tendo entrevistado alguns dos maiores realizadores do mundo, reflete sobre sua ficção literária?
EÉ difícil medir o quanto do lado de crítico de cinema influenciou-me a ser novelista. Mas o que eu sei é que escrever é um ofício semelhante, seja como jornalista, crítico, ensaísta ou romancista. E, para minha sorte, nos últimos 20 anos, pude conversar com os maiores génios do cinema no Festival de Cannes, na minha carreira de repórter e crítico de cinema. Deles, sempre aprendo truques para contar melhor uma história. Eles, os realizadores de cinema, acreditam que estão numa entrevista comigo, mas eles não sabem que, para mim, o papo se trata de aulas magnas e gratuitas de storytelling.
Qual é a busca estética da sua literatura?
Faço política, sem dúvida, porque falar de pobreza e de vampiros, em solo latino-americano, é ser político. Como? Assim: ao traçar a pobreza esquecida e escondida do Chile de hoje, quero trazer à vista o enorme descontentamento social. Mostrar que milhões de pessoas estão nas ruas, protestando contra o primeiro modelo de capitalismo selvagem aplicado no mundo pelos malditos Chicago Boys, não é casual. As pessoas estão exaustas, estes yuppies cruéis que nos controlam, desde todos os pilares da vida, sugam-nos o sangue como verdadeiros vampiros. Sempre quis usar a figura do vampiro como metáfora do abuso do capitalismo nos meus romances. Nas minhas tramas, o meu jovem protagonista escreve e desenha um romance de vampiros. É um romance dentro do romance. E Mihai, o vampiro desse romance dentro do romance, faz parte desse jogo metafórico. Vencedora do Prémio Nacional de Literatura do Chile, a escritora Diamela Eltit comentou, com generosidade, que essa minha figura vampírica e o seu eco como crítica ao capitalismo selvagem, saltou diante de seus olhos, no entendimento da realidade do nosso país. Ela foi muito generosa.
Como é a sua relação com a literatura dos demais países da América Latina?
Conheço pouco dessas outras literaturas, tirando o que saiu pela Anagrama e por outros selos editoriais grandes. O que eu conheço mais são as BDs, as graphic novels, que nos revelam histórias totalmente sintonizadas como o presente.

