Galáxia Linklater no Centro Pompidou

(Fotos: Divulgação)

Respira-se Richard Linklater em Paris

Nos próximos cinco dias, o Centre Pompidou dissecará todo o simbolismo presente na carreia do realizador norte-americano de 59 anos, desde a sua estreia, em Woodshock (1985), curta-metragem sobre rock alternativo, até Onde estás, Bernardette?, lançado este ano, com Cate Blanchett como protagonista. A exposição, de fotos de bastidores e vídeos, calçada ainda por uma mostra de filmes, cresceu em popularidade no meio da expetativa de que a Berlinale 70 (20 de fevereiro a 1 de março) seja o palco de estreia do novo filme do realizador: o musical Merrily We Roll Along.

Estima-se que ele volte a lutar pelo Urso de Ouro (em 2014, saiu da Alemanha com o troféu de melhor realização, por Boyhood) com a saga de um talento da Broadway que resolve dedicar-se a Hollywood, aprendendo as manhas que regem a indústria do audiovisual. Manhas que Linklater, um cineasta autodidata, nomeado cinco vezes ao Oscar aprendeu na prática, filosofando. E essa filosofia formata o livro Cinéaste du Moment, publicado pela Post-Éditions Débord Ements e vendido pelo Centro Pompidou. “Falar da juventude é falar de privilégios, mas também de irresponsabilidade“, diz o realizador numa entrevista dada ao livro, que sintetiza as ideias que o centro parisiense dedicado à arte contemporânea procurou reunir. Nas suas paredes vemos fotos do jovem Richard, cenas dos sets de Antes do Amanhecer” (laureado com o Urso de Prata de melhor realizador, em 1995, em Berlim) e um painel com a evolução das personagens de Boyhood, ao longo dos doze anos de captação de suas imagens.

Existe uma América que corre atrás do próprio rabo, em piloto automático. Tento entender como chegamos a ela“, disse Linklater ao C7nema quando concorreu à Palma de Ouro, em 2006, com Fast Food Nation. “Os filmes são feitos em equipa, mesmo quando embarcam na paixão de alguém. São obras de um grupo“, disse ele, que trabalhou várias vezes com Ethan Hawke e Matthew McConaughey, o que justifica a presença de vídeos com ambos na mostra do Pompidou. O seu encerramento vai ser com uma projeção de It’s Impossible to Learn to Plow by Reading Books, longa-metragem de 1988 que tem o próprio Linklater como ator.

Passando em revista filmes de culto como Waking Life (2001) e sucessos populares como Escola do Rock (2004), a retrospectiva do Pompidou mostra que a palavra é a vedeta da estética de Linklater. Nela, tudo existe pelo verbo, sejam de ação ou de estado. Conversa-se sem parar no cinema que faz, vide Antes do Amanhecer, que vai ser exibido no centro francês esta sexta, às 20h. Nem sempre os verbos resolvem situações nas narrativas de planos médios ou closes do cineasta, aqui com planos-sequência bem sazonais. Mas a saliva que se produz nas suas histórias vira água benta, sacralizando o direito à dúvida, à fragilidade, ao erro.

Com o fim da mostra de Linklater, nesta segunda, o próximo realizador a ter a sua obra analisada pelo Pompidou será o bielorrusso Sergei Loznitsa. De 8 de janeiro a 8 de março, o realizador de Na Neblina (prémio Fipresci, em Cannes, em 2012) vai ganhar uma exposição que liga o seu trabalho como documentarista e as seus longas-metragens de ficção. A retrospectiva faz parte do circuito de promoção internacional do seu trabalho mais recente, State Funeral, lançado no Festival de Veneza.

Dono de uma verve documental autoralíssima (sobretudo no uso de imagens de arquivo), marcada por estudos sobre a paisagem e a população russa, com filmes como Vida, Outono (Zhizn, osin,1998), Estação de Combóios (Polustanok, 2000), e Retrato (Portret, 2002), Loznitsa revisita, nesta longa-metragem, imagens do enterro de Estaline, em 1953 – a maioria delas desconhecida.

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