Nesta rubrica do C7nema encontram-se as nossas recomendações mensais sobre a programação da Cinemateca Portuguesa.

Depois de em 2019 ter dado destaque ao melodrama, 2020 vai ser marcado na Cinemateca Portuguesa com uma viagem ao reino da comédia, com janeiro a dar o mote com a exibição dos chamados filmes canónicos onde se encontram “as principais figuras criadoras do género (e criadas pelo género)“.
O mês ficará ainda marcado pela conclusão do ciclo iniciado em dezembro de 2019 em torno do sul-coreano Hong Sang‑soo, agora com a exibição das suas 11 longa-metragens realizadas entre 2012 e 2018; enquanto o Centenário de Fernando Namora será assinalado na Cinemateca com a exibição de um ciclo de filmes com quatro adaptações das suas obras mais importantes, bem como alguns trabalhos que lhe foram dedicados.
Reis da Comédia
Numa vastíssima programação, o mais simples seria despejar todos os títulos presentes nela. O díficil seria resumir a apenas alguns exemplares, escolhas pessoais, mesmo que a alma nos doa por não abordar aqui filmes de Lubitsch, Capra ou Howard Hawks, todos eles em exibição neste ciclo. Aqui ficam 12 escolhas…

The Great Dictator (O Grande Ditador, 1940) – Quando se fala de comédia, há que inevitavelmente chamar Charlie Chaplin à conversa, e quando este surge é imprescindível abordar a sua sátira de aviso ao fanatismo e intolerância através do retrato do ditador fictício (mas explícito na referência) Adenoid Hynkel. Sessão: Quinta‑Feira, 2 de janeiro, 15:30
Monty Python The Life of Brian (A Vida de Brian, 1979) – A trupe britânica, que ganhou fama maioritariamente pelos seus trabalhos televisivos, embarcou no cinema nesta aventura em jeito de paródia aos filmes bíblicos, contando a história de Brian, um homem nascido no mesmo período que Jesus Cristo e – por tal – confundido, entre enormes mal entendidos – com o messias. Um dos filmes mais marcantes da comédia nos anos 70 e uma verdadeira fonte de inspiração para muitos dos comediantes dos tempos correntes. Sessões: Sexta‑feira, 3 de janeiro, 19:00 | Segunda‑feira, 13 janeiro, 15:30
Playtime (Playtime ‑ Vida Moderna, 1967) – Desastre comercial na época, levando a produtora de Jacques Tati à bancarrota, Playtime é uma verdadeira sátira à vida moderna, à mecanização dos procedimentos e despersonalização do espaço pelo homem, mais uma vez com a presença do Sr. Hulot, o alter ego de Tati. Sessões: Sexta‑feira, 3 janeiro, 15:30 | Quarta‑feira, 8 janeiro, 19:00.
The General (Pamplinas Maquinista, 1926) – Falar de comédia implica falar de Buster Keaton, um dos nomes primordiais do cinema neste género. E foi o próprio a definir em 1961, numa entrevista, que este filme – sobre Johnnie, um apaixonado pela sua locomotiva, a General, e também pela bela Annabelle Lee, que durante a Guerra Civil Americana tem de salvar ambas das garras dos Unionistas – “foi o que o deixou mais orgulhoso“, Sessões: Sábado, 4 janeiro, 15:00 | Terça‑feira, 7 janeiro, 15:30
The Awful True (Com a Verdade me Enganas, 1937) – No reino da comédia “Screwball”, esta história de equívocos e outras malapatas – colocava um casal em processo de divórcio e a atazana/boicotar a vida um do outro até derradeiramente perceberem que afinal ainda se amam e querem estar juntos. O realizador Leo McCarey ganhou o Oscar, a protagonista Irene Dunne foi nomeada, e Carey Grant despertou para o género com este filme. Sessões: Quinta‑feira, 2 de janeiro, 21:30 | Sexta‑feira, 10 janeiro, 15:30
Canção de Lisboa, 1933 – A dita primeira comédia portuguesa da apelidada Idade de Ouro do género em Portugal sobrevive até hoje como um dos trabalhos mais exemplares de Vasco Santana no Grande Ecrã, ele que interpreta um boémio malandrão que engana as tias que o sustentam enquanto supostamente tira o curso de Medicina. Uma comédia de enganos, desenganos, paixonetas e redenção musical, onde até Manoel Oliveira aparece num papel secundário. “Vítima” (é o melhor termo) de um remake recentemente, Canção de Lisboa é um clássico absoluto do cinema nacional Sessão: Sexta‑feira, 10 janeiro, 18:30

The Bellboy (Jerry no Grande Hotel) – Escrito, produzido, realizado e protagonizado por Jerry Lewis, outro nome invariável na comédia, o filme – quase sem diálogos – mostra as aventuras de um paquete/mandarete num hotel que se mete em absurdas situações e se vai desenvencilhado delas com muito humor à mistura. Sessões: Terça‑feira, 14 janeiro, 15:30 | Quarta‑feira, 22 janeiro, 21:30
The Party (A Festa, 1967) -.A dupla Blake Edwards/Peter Sellers, que brilhou em A Pantera Cor de Rosa, supera as expetativas nesta comédia onde um ator indiano (Sellers), depois de destruir acidentalmente um estúdio de cinema, é convidado para uma festa de um produtor onde vai provocar confusão atrás de confusão. Sellers, que se inspirou em duas personagens que anteriormente tinha interpretado (O Dr. Kabir em Os Milionários; e o Inspetor Clouseau em Pantera Cor de Rosa) para o seu papel, viria a influenciar com a sua performance muitas personagens contemporâneas, como por exemplo Mr Bean (interpretado por Rowan Atkinson) ou APU, personagem dos Simpsons. Sessões: Quarta‑feira, 22 janeiro, 15:30 | Sexta‑feira, 24 janeiro, 18:30
Trading Places (Ricos e Pobres, 1983) – Com duas estrelas da comédia dos anos 80 – Dan Aykroyd (saído em alta de O Dueto da Corda e prestes a transformar-se em Caça-Fantasmas) e Eddie Murphy (bem sucedido com 48 Horas e no Saturday Night Live), Ricos e Pobres conta a história de dois homens que trocam de posição social após uma dupla de investidores ricos fazerem uma aposta. O nome de Murphy ganhou aqui projeção mundial, especialmente por ser o primeiro negro a tornar-se um ícone da comédia. O filme conta ainda com “Inga from Sweden”, que a bem dizer é apenas e só um disfarce da sensual Jamie Lee Curtis, apanhada na ação após acolher em casa um Dan Aykroyd caído em desgraça e a expressão Merry New Year sobrevive até hoje! O filme tem ainda como curiosidade o facto de os perversos apostadores terem tido uma pequena participação, anos depois, noutro grande sucesso de Murphy, em jeito de cameo: O Príncipe em Nova Iorque. Sessões: Segunda‑feira, 20 janeiro, 21:30 | Terça‑feira, 28 janeiro, 15:30
Divorzio All’italiana (Divórcio à Italiana, 1961): A “comédia à italiana” produziu enormes sucessos desde os anos 40 e o próprio termo era muitas vezes usado como chavão para o título dos filmes, como Ciúme à Italiana, ou este “Divórcio”, trabalho de Pietro Germi que provocou polémica em Itália e foi temporariamente proibido em Portugal. Com o divórcio proibido na época, o barão Fefé Cefalu – farto da vida com a mulher e apaixonado pela prima ngela – engendra um plano para matar a esposa simulando uma situação de adultério, que o livraria da cadeia. Sessões: Sexta‑feira, 24 janeiro, 19:00
Spaceballs (A Mais Louca Odisseia no Espaço, 1987) – Se o próprio admitiu que o seu Balbúrdia no Oeste seria impossível de concretizar nos dias de hoje, o mesmo não se pode dizer a este Spaceballs, paródia assumida da franquia Star Wars que ganhou novos capítulos agora sob o selo Disney. Não foi o primeiro a parodiar diretamente com outros filmes, mas um dos melhores exemplares do género, isto de um nome provocador do cinema norte-americano, que não esqueçamos já tinha reescrito a história do mundo anos antes e queimaria mais uma aldeia pois teve de mais uma vez mexer na história de Robin Hood, o herói em collants. Sessões: Quinta‑feira, 30 janeiro, 19:00
Centenário Fernando Namora

Retalhos da Vida de um Médico (1962) – Vinte anos antes de Artur Ramos ter levado em formato série a obra do escritor e médico Fernando Namora (publicado em 1949), Jorge Brum do Canto adapta o livro já em pleno período do Cinema Novo, mas não inserido nele. Subsidiado pelo Fundo de Cinema nos tempos do Estado Novo, esta adaptação marcou presença no Festival de Berlim e segue o jovem médico João Eduardo, que vai exercer para uma aldeia, conquistando a estima e o respeito da comunidade. Sessão: Terça‑feira, 28 janeiro, 18:30
Domingo à Tarde (1965) – Presente no Festival de Veneza, numa versão não censurada, o filme de António Macedo já está empacotado no chamado Cinema Novo e seguiu cronologicamente Os Verdes Anos (1963) e Belarmino (1964), tendo, contudo, a particularidade de ter recebido subsídio em 1965 do Fundo de Cinema, fenómeno raro para o Cinema Novo, que não era bem visto pelo regime. “O hospital não é uma prisão, se quer sair, a porta está aberta“, ouve-se a certo momento nesta obra sombria – e com um olhar moderno à mulher – situada no meio hospitalar com argumento baseado no romance homónimo de Namora. Sessão- Terça‑feira, 21 janeiro, 18:30 | Sala Luís de Pina
Nasci com a Trovoada – Autobiografia Póstuma de um Cineasta (2017) – O objeto de estudo é o cineasta Manuel Guimarães, mas a ligação de grande amizade entre este e Fernando Namora é retratado (através da correspondência entre ambos) neste documentário que será apresentado ao público pela sua realizadora, Leonor Areal. Sessão: Quarta‑feira, 29 janeiro, 18:30
As Variações de Hang San Soo

Da-reun na-ra-e-seo (Noutro País, 2012) – Na sua primeira colaboração com Isabelle Huppert, que reencontraria em La Câmera de Claire (2017), Hong Sang‑soo pega numa jovem (Mi Jung Yu) aspirante a argumentista – que após uma complexa situação familiar – encontra refúgio na escrita, elaborando a intriga de uma estrangeira de passagem por uma cidade costeira da Coreia do Sul. Entre as evocações rohmerianas habituais, um surrealismo labiríntico, mas igualmente uma simplicidade formal, Sang‑soo teve neste filme o seu primeiro título ter estreia comercial em Portugal. Sessões: Quinta‑feira, 2 de janeiro, 19:00 | Terça‑feira, 21 janeiro, 19:00
Outras Sessões
Ciao, Federico! (1969) – Esta primeira exibição na Cinemateca, em cópia digital, tem “como desculpa” a celebração, no dia 20 de janeiro, dos 100 anos do nascimento de Federico Fellini. Assinado por Gideon Bachmann, e exectado durante as filmagens de Satyricon, o documentário captura a atmosfera mágica das filmagens, mostrando o realizador em pleno processo de criação. Sessão: Segunda‑feira, 20 janeiro, 19:00
Hairspray – Laca (1988) & Laberinto de Pasiones (1982) – Juntar John Waters e Pedro Almodóvar numa Double Bill é a proposta da Cinemateca, reunindo num lado o clássico do “O Papa do Cinema Trash” (que ele disse recentemente que lhe abriu a porta a todos os estúdios norte-americanos) e um Almodóvar em princípio de carreira. Preparem-se para uma dupla sessão onde uma adolescente se torna uma vedeta pop da televisão e uma jovem ninfomaníaca e o filho de um imperador árabe colidem numa comédia grotesca e transgressiva, com toque musical (Almodóvar surge como figurante numa banda e diretor de fotonovelas), onde todas as personagens tentam dormir umas com as outras. Sessão: Sábado, 18 janeiro, 15:30

La Femme Au Couteau (A Mulher com a Faca, 1969) & O Som ao Redor (2012): Double Bill com particular destaque para o primeiro filme pela raridade da sua exibição, até porque só recentemente o filme foi restaurado pela Cinemateca de Bolonha. Segundo Timité Bassori, La Femme Au Couteau é “uma experiência pessoal e resultado de múltiplas observações da vida“, e o mesmo se pode dizer do imersivo O Som ao Redor, assinado pelo antigo crítico e agora realizador Kleber Mendonça Filho. Se o segundo é uma história de vingança, onde pontua uma violência latente após a chegada de um grupo de seguranças a um bairro de classe média do Recife, o primeiro visita os dilemas dos africanos, presos entre os costumes tradicionais e a modernidade ocidental implantada pelo colonialismo, através da história de um homem fustigado por pesadelos psicóticos em que a imagem de uma mulher com uma faca é recorrente. Sessão: Sábado, 11 janeiro, 15:30.
O Auto da Floripes (1963) – Numa versão recentemente restaurada pelo arquivo da Cinemateca, em colaboração com o Cineclube do Porto, o filme produzido pela Secção Experimental do Cineclube do Porto, à altura dirigido por Henrique Alves Costa, o projeto regista a representação de um auto popular pela população da aldeia das Neves, distrito de Viana do Castelo. Sessão:Sexta‑feira, 17 janeiro, 18:30

