Casanova, um herói de um tempo de Luzes… e das trevas morais

(Fotos: Divulgação)

Indicado múltiplas vezes ao Leão de Ouro e ao Urso de Berlim, Benoît Jacquot, hoje com 72 anos, resolveu usar o envelhecimento como ponto de partida para uma desconstrução de um mito do sexo no Velho Mundo: o italiano Giacomo Girolamo Casanova (1725-1798).

O eclipse da sua potência – e de sua era – é o foco de Dernier Amour, produção já lançada em Portugal que chega às telas do Brasil neste fim de semana pré-festa de Réveillon, com o título de O último amor de Casanova. Vincent Lindon (de “O valor de um homem”) encarna o sedutor nº1 da Europa nesta narrativa histórica sobre impotências do querer. No século XVIII, no meio ed uma viagem à Inglaterra, regada a sexo, ostras e tortas cheias de glacê, o nobre tem um embate com uma jovem cortesã, Chapillon (papel dado a Stacy Martin), que quer usá-lo num jogo de busca de dinheiro que precisa. As negativas da moça em cair na lábia do aristocrata dão a ele o combustível romântico, que incendeia o seu espírito inquieto.

Na entrevista a seguir, o diretor de Adeus, minha rainha (2012) fala sobre reconstituições de época.

Qual é o ethos que guia um “filme de época”, ou seja, uma reconstituição histórica, em relação aos comportamentos, à moral?

O cinema é a linguagem da presentificação, sempre. Olhamos o Ontem sob o prisma do Hoje, pois a nossa interlocução é com espectadores que estão aqui entre nós, no presente, com valores da atualidade. O que procurei, ao revolver o século XVIII, os anos 1700, foi o interesse pela lógica das Luzes, do Iluminismo, de um racionalismo que revela os bastidores das relações de poder por conta do jogo de manipulações e de interesses que vemos em cena. O ponto que mais me importa, nesse ethos em relação à sedução, valor que associamos essencialmente a Casanova, é o debate secular dos géneros, do masculino e do feminino.

Qual é a imagem de Casanova que o senhor construiu com Vincent Lindon?

Queria retratar o grande sedutor da História sob uma ótica crepuscular. Se a sedução passa pelo corpo, como seria retratar esse processo do desejo a partir de um corpo que chega à velhice, à decadência física. E diante dessa perceção do enfraquecimento do corpo, a memória passa a ser a instância do desejo. É a partir dela, da memória do que Casanova foi, que se descortina uma nova realidade, de busca por novos prazeres, entre eles algo que possa ser amor.

http://www.youtube.com/watch?v=kXaCJzhfZNA&t=3s

O quanto o Casanova de Donald Sutherland, dirigido por Fellini, serviu como referência para sua narrativa?

Fellini odiava Casanova. Isso é percetível na maneira crítica como ele retratou a personagem, na sua linhagem aristocrática, na sua inércia moral. Eu tenho mais simpatia pela figura desse homem que viveu guiado pelo desejo. A minha abordagem aposta numa linha humanista.

Qual é a maior responsabilidade de fazer cinema na França hoje?

Como o cinema nasceu aqui, com os Lumière, ele é encarado como um patrimônio nosso, que se fortalece pela diversidade. Como temos várias linhas de filmes, podemos, aqui, investir em várias vertentes narrativas: as mais comerciais, as mais experimentais. Penso que o nosso desafio é construir uma universalidade preservando valores que são essenciais à nossa cultura. Este projeto nasceu de uma parceria com os irmãos Dardenne, que têm um olhar sobre o realismo muito particular, quase documental. E eles aproximaram-se por amizade e gentileza, auxiliaram muito, na construção de uma narrativa de investigação sobre comportamentos.

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