“Temos um grande problema”: a história de um pénis que não entra numa vagina

(Fotos: Divulgação)

Na verdade, o título nacional é bastante romântico, sobretudo se tivermos em conta que devia ter sido traduzido para “O meu marido não vai caber“, pois o título internacional é My husband won’t fit

Estreada em março de 2019 na Fuji TV e agora parte integrante do catálogo Netflix, Temos um grande problema é uma série japonesa protagonizada por Natsumi Ishibashi e Aoi Nakamura e conta a história de Kumiko e Kenichi, que se conhecem na faculdade e que se tornam um casal. Um casal peculiar pois são sexualmente incompatíveis e não conseguem consumar a relação nem o casamento pode ser consumado.

Composta por dez episódios e adaptada de uma novela autobiográfica e respetiva mangá, parece tratar-se de uma comédia, mas não é, de todo – isto apesar de, verdade seja dita, ter um caracter inevitavelmente cómico, dada a circunstância peculiar da história central.

Kumiko é uma jovem rapariga que abandona uma zona rural, uma família e educação rígida, sobretudo por parte da mãe dominadora, para estudar numa cidade estranha. Sem ter noção do que são relações humanas saudáveis, Kumiko é sensível, plácida e vive para agradar os outros.

É no prédio onde aluga uma “casa” que conhece o também jovem universitário, Kenichi. A empatia entre ambos é imediata, até a física, sem que no entanto a consigam levar a cabo na totalidade. Mas mesmo perante este problema, no que à vida sexual diz respeito, o casal decide continuar a relação e acabam por casar. “Amor não é sinónimo de sexo“, argumentavam. Sexo não pode ser o mais importante numa relação de amor e tudo, mas tudo fizeram para contornar esta situação, e até recorreram à ajuda de óleo de bebé e de lubrificantes. A relação foi alicerçada com laços emocionais fortalecidos pela ausência de vínculo físico e cimentados por uma confiança inquebrável. Até ao dia em que Kumiko descobre que o marido recorre a prostitutas.

Neste dia, o mundo de Kumiko muda e a jovem – que não era virgem quando conheceu Kenichi, convém esclarecer – envereda em relações extraconjugais e sexuais com vários desconhecidos que conhece na internet. E sim, nestas relações a penetração acontecia com sucesso… mas com o marido o êxito é inexistente.

Nunca se percebe bem o porquê da incompatibilidade sexual entre o casal, talvez pelas dimensões do pénis. A dúvida permanece até ao fim. O que merece destaque nesta série é a forma como as personagens, sobretudo a feminina, lida com este problema. A cultura japonesa rígida e ancestral é mergulhada num argumento em que a diversão é introduzida de forma inadvertida, seja com momentos de constrangimento social e profissional ou até nos momentos mais íntimos e tensos em que o casal tenta resolver “o problema”.

A timidez da personagem principal é tratada de forma magistral pela atriz Natsumi Ishibashi., isto porque a timidez feminina no mundo da pornografia asiática é uma peça-chave e característica vigente em grande parte dos vídeos e filmes produzidos por esta cultura, que possui uma das indústrias mais imaginativas e proliferas do mercado da pornografia mundial. Porém aqui, na série de que falamos, a timidez não tem características pornográficas; é mesmo uma referência à cultura ancestral e à estranheza perante a surreal situação. “Temos um grande problema” é um retrato peculiar, contado com grande sensibilidade e salpicado de momentos de comédia subtil, sem nunca resvalar em clichés ou exageros.

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