Escrita por Jess Brittain e protagonizada por Synnøve Karlsen, Clique foi criada para fazer parte do catálogo do serviço online da BBC, o BBC Three, sendo que, dada a boa recepção e crítica positiva acabou por passar também a integrar a grelha da BBC One e agora está disponível no catálogo HBO
Clique é um fruto dos novos tempos, impulsionada pelas tendências feministas contemporâneas e na defesa da igualdade de oportunidades nos locais de trabalho, mas tudo isto com um toque de thriller, policial e drama.
A história centra-se na vida de jovens universitárias e de um auspicioso desejo de conseguir ingressar no programa de estágios de uma conceituada empresa do universo financeiro. Se uma outra série da BBC Three, Fleabag consegue abordar de forma mais leve e até cómica os desafios femininos do século XXI, Clique arranca, literalmente, com uma dura palestra sobre o assunto.
O cenário central da série é a Universidade de Edimburgo, onde a professora Jude McDermid (Louise Brealey) leciona uma cadeira designada “Introdução à Macroeconomia” e na plateia da apresentação da disciplina estão, animadas e nervosas, as duas [melhores] amigas Holly (Synnove Karlsen) e Georgia (Aisling Franciosi). McDermid inicia a retórica sobre os desafios e problemas do feminismo moderno: “As mulheres representam 51% da população deste país. As cadelas (bitches) são a maioria. Digam olá à maioria – e depois digam adeus, porque é o única circunstância em que têm uma maioria. Apenas 29% dos deputados são mulheres, somente 22% dos professores universitários são mulheres e apenas 10% são diretoras do universo do FTSE 100 (as 100 empresas britânicas mais importantes de acordo com uma métrica definida e publicada pelo Financial Times)” e de seguida questiona: “Porquê? Sexismo?” ao que responde: “Não, o sexismo é um problema do mundo em desenvolvimento. O problema aqui, senhoras, são vocês. Vocês é que se tornaram vítimas em todos os escritórios. São vocês que estão a discutir a diferença salarial, quando deveriam estar a seguir as suas carreiras. Vocês são o problema.” E conclui: “O feminismo neste país foi infectado por desinformação e obsessão por ser ofendido. Estou aqui para ajudá-las. Não estou aqui para ajudá-la a cavalgar só porque possuem uma vagina.” [tradução livre].

É assim que a professora McDermid se apresenta. E esta mulher tem uma peculiaridade, é a fundadora da Solasta Women’s Initiative, em parceria com seu irmão Alistair McDermid (Emun Elliott), e ambos são responsáveis por uma empresa denominada Solasta Finance – que alberga os apetitosos e competitivos estágios. Mas estes estágios são envoltos em grande mistério: envolvem jovens mulheres sofisticiadas e glamorosas, festas constantes e “gerenciamento de contas de clientes”, mas que insistem que a única missão que têm é “fazer cafés e tirar fotocópias”.
O grupo de estagiárias vive numa imponente moradia e têm um motorista. As amigas Holly e Georgia envolvem-se neste estilo de vida que tem muito mais nos bastidores do que aparenta. Holly, a mais astuta, depressa percebe que algo está muito errado e começa a investigar e a explorar este submundo. O que vai descobrir vai muito além da competição e status, vai abordar a exploração, a pressão surreal da procura pelo sucesso e nas dificuldades financeiras que os estudantes enfrentam.
Clique dá voltas e reviravoltas improváveis que a impedem de se tornar um qualquer tipo de conto de moralidade. Não dá à protagonista uma imagem saturada de uma mulher violenta e sedenta por vingança e poder, não sugere que a ambição é má ou que as mulheres em posições de poder corporativo são inerentemente antifeministas. É uma história sombria e inquietante com uma importante lição sobre realização, potencial e podridão humana (não só no feminino!) .

