A apresentação do DVD decorreu ontem (15 de dezembro) na FNAC Chiado e contou com a presença das atrizes Soraia Chaves e Maria João Bastos, do realizador Fernando Vendrell, e do editor Vladimiro Nunes (Ponto de Fuga).

Não estavam três, mas apenas duas mulheres no lançamento do DVD da primeira temporada de 3 Mulheres, série de ficção da RTP assinada por Fernando Vendrell – construída a partir das biografias e da intervenção cultural e cívica da poetisa Natália Correia, da editora Snu Abecassis e da jornalista Vera Lagoa (pseudónimo de Maria Armanda Falcão).
“Todo o processo de escrita foi bastante complexo“, explicou Fernando Vendrell sob a realização de um projeto que inicialmente iria contar com 20 episódios, mas que depois acabou por condensar-se em 13. Uma das maiores dificuldades foi conseguir levar as mulheres retratadas ao pequeno ecrã sem cair na caricatura ou no mimetismo, trabalho que obrigou Soraia Chaves a “fazer escolhas” e a ser muito “firme” nas suas opções para retratar Natália Correia: “Ela era tão complexa, teve uma vida tão cheia e fases tão diferentes na sua vida, que não quis que a época [que retratamos] fosse contaminada pelas que se seguiram (…) Quando falava com pessoas sobre esse papel, as pessoas falavam sempre da Natália do Parlamento, da Natália dos anos 80. Não era isso que queríamos, por isso disse que ia parar de ouvir estas pessoas e focar-me na sua poesia.”
A investigação de Soraia Chaves em torno da personagem envolveu a leitura de muitos dos livros de Natália Correia, não tanto os políticos, mas o que revelavam mais o seu lado mais íntimo. “Fui descobrindo a Natália a partir do que ela nos deixou“, disse a atriz, acrescentando que uma fotobiografia em torno da poetisa foi uma grande ajuda para o seu processo criativo: “Consigo ir buscar muito a uma imagem. Tive uma abordagem a ela muito intimista“.
Na mesma linha de intimidade, Maria João Bastos explicou como assumiu a pele de Maria Armanda Falcão, tendo encontrado várias dificuldades pelo caminho, pois não existiam muitos registos em torno dela, a não ser no momento em que assumiu o pseudónimo Vera Lagoa. “Eu tinha muito pouco material sobre a Maria Armanda Falcão. Havia sim, muito material sobre a Vera Lagoa, mas não era dela que estávamos a tratar neste momento. Tive a sorte de ter um enorme apoio da família da Maria Armanda Falcão, que me facultou imenso material (fotografias, entrevistas, livros) sobre ela. Tive de fazer uma escolha, pois a pessoa que está retratada nesta primeira fase, não é a imagem que o público tem na memória sobre ela. A minha questão foi assim ir pelo lado mais intimista. Quem era a Maria Armanda Falcão no seu lado mais pessoal, mais genuíno?“.

Victória Guerra, Soraia Chaves e Maria João Bastos
“Mais que o mimetismo, verossimilhança, ou parecença – que podia ser logo à partida muito limitante – procuramos uma aproximação do trabalho dos atores (…) deles fazerem uma leitura da personagem que estavam a retratar“, acrescentou Vendrell, que anunciou que uma segunda temporada está a caminho e que espera começar as filmagens no verão. Sem adiantar muitos mais detalhes sobre esta segunda entrega, o realizador assume que pretende-se retratar as vivências destas personagens no pós 25 de abril:”Vamos tentar catapriscar a forma como as pessoas viviam nesse momento de liberdade, que é quase antagónico do visto na primeira temporada“.
Dando o exemplo de Vera Lagoa, que estava muito “codificada” na primeira temporada, Vendrell explicou que a personagem foi difícil de abordar, até porque sempre que falavam dela, muitas pessoas conotavam-na à direita política e achavam-na “indigna” de ser retratada: “[Essas pessoas] ficaram surpreendidos com o trajeto dela na primeira série e penso que vai também haver uma surpresa na segunda temporada. Nós entrevistamos recentemente a secretária pessoal da Vera Lagoa e ela disse-nos que ela era comunista. Dito assim, na redação do Diabo, quase de ultra-direita em pleno PREC, que a personagem [Vera] era conhecida como sendo de esquerda, é bastante estranho“.
Já Soraia Chaves acrescentou que só agora – nesta segunda temporada – vai descobrir o lado político de Natália Correia, pois até agora apenas se concentrou no lado romântico, sonhador e libertário da antiga deputada do PSD e PRD.

