Don Corleone do subúrbio do Rio de Janeiro, chefe do crime no bairro de Madureira, uma zona de forte comércio, Boca de Ouro conquistou o imaginário brasileiro em 1959, a partir dos palcos, na obra de Nelson Rodrigues (1912-1980), onde se destaca como um signo de potência, mas também de decadência moral.

A sua singularidade na fauna teatral latino-americana deu a ele passagem pelos cinemas, primeiro na pele de Jece Valadão, numa primorosa adaptação feita por Nelson Rodrigues, em 1963; depois, na figura de enorme prestígio televisivo de Tarcísio Meira, numa releitura de Walter Avancini, de 1990. Agora, após múltiplas encarnações no teatro, a personagem regressa ao cinema, encarnado por um ator que, desde os 1980, tem lugar de honra na produção audiovisual do Brasil: Marcos Palmeira, protagonista de telenovelas como A Dona do Pedaço.
Aos 56 anos, ele protagoniza uma imersão do realizador Daniel Filho no universo rodriguiano, que se candidata a sucesso de bilheteria a partir de uma projeção de gala no Festival do Rio. A projeção acontece neste sábado, no Cine Odeon. A narrativa segue um formato Rashomon: vemos diferentes versões dos factos.
“Boca de Ouro está no imaginário popular e todos por aqui acreditam que ele existiu. Ele representa esse bicheiro folclórico que tinha ligação tanto com a comunidade quanto com os empresários e artistas. Isso é um pouco do reflexo que existe até hoje. A partir dessa relação, deste olhar folclórico que surgiram as milícias (organiza mafiosa de policiais corrputos)“, diz Palmeira, ao mencionar a ligação de Boca com o Jogo do Bicho, uma forma de aposta ilegal comum em todo o Brasil. “Estamos sempre querendo um salvador da pátria, alguém que resolva os nossos problemas do dia a dia. Acho muito importante e atual. Grande Nelson Rodrigues!“.

A sua trama ambienta-se nos anos 1960. Boca de Ouro (Palmeira) é um criminoso que, ainda bebé, foi abandonado pela mãe, a líder de uma quadrilha de tráfico de drogas, na casa de banho de uma gafieira. Ao crescer ele manda arrancar todos os seus dentes e colocar no lugar pedaços de ouro. Ele também cultiva o sonho de ser enterrado num caixão dourado. Designado para descobrir a verdadeira história do marginal, o repórter Caveirinha decide entrevistar a sua ex-amante, que conta diferentes versões da vida do bicheiro.
“O Nelson Rodrigues foi muito importante na minha formação. Ele foi motivo de estudo na época da CAL (escola de teatro), onde tive a oportunidade de encenar uma de suas peças, A Falecida, num exercício”, lembra Palmeira. “Depois que fiz A Vida como ela é, com o Daniel Filho, pude mergulhar neste universo dele. Poder hoje representar o Boca de Ouro é coroar todo um trabalho de anos. Nelson Rodrigues nunca esteve tão atual no Brasil“.
Há novas sessões de Boca de Ouro no Festival do Rio agendadas para segunda-feira, no Cine Roxy, e na terça, no Reserva Cultural.

