Tudo pela Justiça (Just Mercy) é uma das mais aclamadas atrações entre os 200 filmes em exibição no Festival do Rio

No meio à triagem da crítica por novas experimentações dramatúrgicas capazes de tirar o cinema da letargia e da repetição, uma vez ou outra, uma narrativa clássica, submissa a convenções de uma velha Hollywood, consegue explodir na tela, pela excelência, e arrebatar pelo domínio pleno da gramática, usando clichês com suficiente sabedoria para disfarçar o gosto do lugar comum, empregando músicas melodramáticas sem pieguice.
É esse o caso do drama judicial Tudo pela Justiça (Just Mercy), um forte candidato ao Oscar 2020. O apelo popular (merecido) de Michael B. Jordan como protagonista, com ecos do arquétipo de realismo psicológico das personagens de Paul Newman, joga holofotes radiantes sobre a longa-metragem de Destin Daniel Cretton, realizador havaiano de origem japonesa conhecido por O Castelo de Vidro (2017). Temos um guião formulaico, mas de uma eficiência inquestionável, vitaminado pela componente de denúncia à exclusão racial. A montagem de Nat Sanders (nomeado ao Oscar por Moonlight) equaliza os excessos e preserva o suspense, elemento essencial a um filão – a dramaturgia de tribunal – que já mobilizou de Fritz Lang a André Cayatte. Impressiona em especial a engenharia de som da longa-metragem.
Baseado em Just Mercy: A Story of Justice and Redemption, livro de memórias de Bryan Stevenson, Luta por Justiça impõe-se politicamente como uma radiografia das moléstias morais dos EUA a partir da institucionalização do racismo. Consegue impor-se também, sem culpa, como filme de herói… herói realista… na luta do advogado Stevenson (Jordan) para livrar o réu Walter McMillian (Jamie Foxx, sublime em cena) de uma execução injusta. A referência ao supracitado Cayatte é essencial a esse heroísmo (político), que assume a ética como foco. Do artesão francês, o belo Pena de Morte (prémio do júri em Cannes, em 1952) funciona como um irmão mais velho dessa discussão sobre injustiça construída por Cretton. Assim como Cayatte, o cineasta americano parte da ideia de que existe o Bem e existe o Mal e entende que as práticas civilizatórias institucionalizadas embaralham os dois conceitos. Em seu ethos, como no de Cayatte, vítima é vítima, sem meios tons, sem abismos que duvidem da fragilização imposta pelos desajustes sociais.
http://www.youtube.com/watch?v=GVQbeG5yW78
No enredo, Stevenson, um rapaz de origem paupérrima, que conseguiu formar-se em Harvard, a duras penas, resolve driblar as exigências do mercado por juristas com sangue no olho e ir ajudar pessoas pobres a se defenderem das injúrias. Vai ao Alabama fundar com a psicóloga Eva Ansley (uma Brie Larson contida e eficaz) uma célula de apoio aos condenados à morte. Um dos clientes é McMillian, papel que Foxx constrói com uma secura absoluta, que quase contrasta com o tom lacrimoso do filme.
Como estrutura de roteiro, Luta por Justiça segue uma relação de causalidade de ações e reações, pontuado por reviravoltas na retórica em nome da defesa de um homem acusado de um assassinato que não cometeu. A acusação é mediada e motivada apenas por conta da cor de sua pele. Cor que também faz de Stevenson um alvo da brutalidade e do preconceito: num exercício de sutileza, Cretton expõe a microfísica do poder da segregação em pequenas ofensas (e algumas ofensas gigantes) que vão castigando a personagem de Jordan, ignorando sua diplomação e sua dignidade. Ao mapear essa microfísica, o cineasta torna Just Mercy num tratado sobre a intolerância e um pleito por um basta.

