Notabilizado nas Américas pela sua relevância na triagem de novos e perenes rumos do cinema brasileiro, o 21º Festival do Rio, inaugurado no dia 9, com Little Women, encontrou num filme americano de toada clássico-narrativa, O Caso Richard Jewell, a pérola mais reluzente do seu garimpo em 2019.

Imperdoáveis sejam os pudores morais que andam a segregar a importância estética ímpar de Clint Eastwood por conta das suas posições políticas pessoais conservadoras. Em seguimento das patrulhas ideológicas, os seus últimos trabalhos, como o doído Correio de droga (2018), não obtiveram as recompensas merecidas. Que o seu novo filme, ovacionado na sua projeção na maratona cinéfila carioca, tenha mais e melhor sorte, com o bom precedente de ter rendido uma indicação ao Globo de Ouro de melhor atriz secundária para Kathy Bates.
Porém, a sua excelência vai muito além dela, com especial destaque para a edição do montador Joel Cox (preciso no trânsito por imagens jornalísticas de arquivo, dos anos 1990) e para a atuação de Paul Walter Hauser, devastador em cena. A fotografia do canadiano Yves Bélanger (de Arrival) também impressiona – sobretudo se comparada ao visual habitualmente conservador dos filmes do realizador – por um jogo de cores que brinca com o passado, com a tessitura mediática da televisão, com registos documentais. E o que fica disso tudo é um ensaio sobre as fake news, um dos males dos dias de hoje. Um ensaio nervoso, mas que preserva a afetividade (como é peculiar ao realizador) no modo como preserva o seu protagonista da caricatura.
Conhecido pelo papel de Raymond na série Cobra Kay e por uma participação em Eu, Tonya (2017), Hauser aproveita as informações de que dispõem sobre o verdadeiro Richard Jewell – um segurança de silhueta farta, fã de junk food, que impediu um atentado terrorista num estádio de Atlanta, durante os Jogos Olímpicos de 1996 – e usa a sua bovina figura para criar uma espécie de Sancho Pança sem Quixote. Falta-lhe uma Dulcineia, mas existe uma mãe (papel de Kathy, numa ternura de pão quente) que o ampara. E existem livros guiando a sua cabeça inventiva, ainda que livros de conduta policial e não romances de cavalaria. Moinhos de vento metidos a gigante existem aos quilos na sua cabeça, em especial o sonho de ser um policial respeitado. Esse sonho, que ele tenta pôr em prática a partir de uma retidão espartana, é o que abre o abismo da sua ruína. O verdadeiro Jewell foi acusado de ter colocado aquela bomba (que fere várias pessoas) a fim de alcançar notoriedade. A mesma acusação põe-se sobre os ombros do Jewell cinematográfico.
Existe nele uma ingenuidade que o aproxima da Million Dollar Baby do próprio Eastwood de 2004, o (superestimado) filme que deu a ele seu segundo Oscar de melhor realizador. E existe no pandemónio que se forma em Atlanta, após a acusação de Jewell, que lembra o campo de caça a Kevin Costner de “Um mundo perfeito” (1993), uma das joias de Clint.

Logo, estamos num terreno de autor, aqui vitaminado pela presença de um elenco muito – mas muuuuuito – acima da média do realizador, com Jon Hamm vivendo o algoz e verdugo de Jewell (o agente do FBI Tom Shaw); com Olivia Wilde como a Lois Lane sem carácter Kathy Scruggs; e com o sempre inspirado Sam Rockwell na pele do advogado Watson Bryant. Este será o defensor de Jewell. Mas é uma defesa em que Eastwood nos surpreende no seu retrato de uma América tacanha, lacradora e gordofóbica, que vê Richard como um “loser” nato pela sua gordura cheia de glúten. É uma América que espelha a Era Trump, mas vai além dela, refletindo a barbárie da histerias de linchamento virtual das redes sociais de hoje. E nesse barco bêbado de intolerância, é um alento o recorte (nietzschiano) que o quase nonagenário cineasta faz de Jewell.
Num paralelismo às avessas entre ave de rapina e cordeiro, Jewell vai se emancipando e dando conta dos abusos que fazem com ele, numa lucidez que salta aos olhos do seu defensor, Bryant (uma brilhante atuação de Rockwell). Esse pede silêncio, quietude, observação. Mas as palavras brotam dos lábios manchados de óleo de Jewell num transbordamento de senso de dever que só cavaleiros andantes como Quixote parecem ver. Todo o samurai sabe seu bushidô, até um ronin como esse rotundo guarda, que sabe o fado que pesa sobre seus ombros. Para fazer essa moira valer, ele estufa o peito e murcha a avantajada barriga num gesto de soberania da verdade, que evoca um dos temas mais caros à autoralidade de Eastwood: o limite entre o que é tolerável e o que não se perdoa. O gasto existencial que separara presa e predador. Jewell vê-se nessas duas instâncias, mas opta por uma delas, numa cruzada que o realizador de Imperdoável (1992) cozinha em fervura máxima às raias da tensão e da indignação diante da manipulação do jornalismo de segunda.
Com isso, temos um filme dos anos 2010. Um filme do presente, estruturado a partir da cartilha do ontem, como num bom clássico com Spencer Tracy, tal Fury (1936), de Fritz Lang. Um filme do tamanho agigantado de Eastwood, para a Eternidade.

