Elia Suleiman: “O mundo tornou-se uma casa de intolerâncias”

(Fotos: Divulgação)

O Paraíso Deve Ser Aqui (It Must Be Heaven) vai ser exibido no Festival do Rio

Dois dias antes de ganhar uma menção honrosa do júri oficial de Cannes e deixar a cidade ainda com o prémio Fipresci, o palestino Elia Suleiman confortou os brasileiros, numa conversa com o C7nema, numa varanda da Croisette, onde ponderou sobre a Idade Média que se abate sobre a América Latina, na sua porção falante da língua portuguesa. Ele esteve na luta pela Palma de Ouro com It Must Be Heaven, que entra na grade no Festival do Rio 2019 nesta quinta-feira. Vai ter sessão do filme às 18h45 (horário do Brasil, no Reserva Cultural.

Dei a volta ao planeta a palestrar, a participar em festivais, a viver e fui percebendo que o mundo tornou-se uma casa de intolerâncias. Não sei com exatidão o que se passa com vocês, mas, sendo da Palestina, sei o que é viver na iminência de conflitos, no jogo do medo. Por isso, aprendi a rir… e a ler. Leio filósofos quando muitos preferem romances. Os grandes pensadores iluminam a minha busca por algum entendimento. Eu nem sei se o que faço é resistir. Mas sei que há que estar atento“, disse Suleiman, com o seu bom humor agridoce, entre baforadas do seu cigarro e golos num café. “Institucionalizou-se a exclusão“.

Em exibição no Brasil com o título de O Paraíso Deve Ser Aqui (It Must Be Heaven), o filme põe o palavroso realizador a viver a si mesmo, numa mistura engraçada de ficção, documentário e ensaio poético, narrando o seu périplo por diferentes cantos do planeta, num autoexílio. A cada pouso, ele tenta entender o que significa ser palestino, com o ónus e o bónus de uma afirmação territorial. “A imprensa falaa  toda hora da minha pátria, sem medir os estragos que pode causar. Eu fiz este filme de andanças, quase um road movie, para entender o que é a identidade de um país que toda a gente conhece da televisão, sem ter ido lá, sem ter olhado nos nossos olhos“, disse Suleiman.

Responsável por filmes de culto como Crónica de um desaparecimento (1996) ele sua o seu humor fino para criticar as incongruências morais na representação do dia a dia no Médio Oriente. “O protagonismo nos meus filmes jamais é dado aos meus personagens, tampouco a mim, e sim ao meio, ao ambiente que eu retrato, às paisagens que visito, com as pessoas que lá encontro e converso. É cinema de gente, de gentes… Eu vivo rodando por diferentes países, fazendo palestras ou filmando cenas do cotidiano. Vivo da minha escrita, mais do que do papel de realizador. Sobrevivo dos roteiros que escrevo. E eles são escritos com base naquilo que observo. A observação é o caminho da troca e do aprendiz“, diz Suleiman, que ganha mais uma sessão de seu filme no Festival do Rio no sábado, no Estação Net Gávea.

Há uma semana, ele reencontrou o C7nema no Festival de Marraquexe, onde foi participar do ciclo Conversações, explicando a sua maneira de filmar. “Tenho muita preocupação com o visual dos meus filmes, usando recursos gráficos diversos e até efeitos visuais, como é o caso do uso de um pássaro digital nesta nova longa-metragem, pois não quero que os meus filmes sejam vistos como uma palestra“, disse Suleiman. “A minha fala está em cena para debater o alarmismo“.

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