Fumam-se os opiácios mais diversos em Dolce Fine Giornata, o que se traduz numa aposta plástica, numa sensorialidade esfumaçada, de caleidoscópio, quase sempre saturada entre o amarelo e o castanho.

As suas personagens, estrangeiros enfurnados em terras italianas – alguns estão lá de forma legal; a maioria, não -, apelam para os narcóticos e para doses fartas de sexo e de lirismo a fim de entorpecerem o desalento que os cerca. Mesmo tendo uma vida financeira confortável, paga pela literatura, a poetiza Maria Linde (Krystyna Janda) trata a vida como se esta fosse sua devedora, no filme assinado por Jacek Borcuch. Revelado mundialmente, há uma década, com Wszystko, co kocham (Tudo o que eu amo, 2009), o cineasta polaco mistura a sua cultura com a de Itália num ensaio sobre insatisfações e ódios engasgados. O título em português é Doce entardecer na Toscana. Sob esse epíteto, a longa-metragem impôs-se como a primeira descoberta do Festival do Rio 2019, fazendo de Linde a primeira heroína a ser projetada pelo evento. O papel deu a Krystyna o prémio de melhor atriz na competição de Sundance, em janeiro. Tão poderoso quanto a atuação dela é o trabalho do fotógrafo Michal Dymek, no seu empenho para traduzir um clima de decadência familiar pelas lentes da desordem – e do pleno excesso.
Politicamente incorreta até a medula, Linde, uma aclamada autora de poemas, cujos pais, judeus, sofreram no Holocausto, solta a sua voz na defesa dos refugiados africanos que tentam a sorte na Itália – atual lar dela. O seu maior conflito está na maneira como a nação onde vive trata com desdém os refugiados que chegam na região da Lampedusa. Um recente conflito em Roma acende a pólvora que ela mantém no peito, a fogo baixo, curando-se da desmesura nos braços de um amante egípcio algumas décadas mais moço do que ela. Com a sua libido em alta, ela desrespeita as leis e trata policias com palavras irónicas e truncadas. A poesia é a sua única lei. Mas ao renunciar a uma distinção importante, ela condena-se a uma ciranda de polémicas que respingam sobre os seus parentes.
Com um domínio cirúrgico das ferramentas de atuação gestual, Krystyna ajuda a figura de Linde a ganhar vida, sem jamais resvalar no caricato. É um filme provocativo, que ataca com urgência o descaso institucional dos europeus com os povos que se abrigam nas suas regiões mais turísticas ou nas suas metrópoles mais endinheiradas, atrás de dignidade. É sobre essa palavra que Linde ergue a sua guerra de ideias e de palavras bonitas.

