Considerada uma das mais plurais vitrines para o cinema brasileiro nas Américas, o Festival do Rio, que iniciou na segunda-feira a sua edição 2019, vai abrir espaço para uma produção que revê as paisagens cariocas a partir de um olhar egresso da seara indie da indústria audiovisual dos EUA: Darren Aronofsky.

O realizador nova-iorquino, ganhador do Leão de Ouro em 2008 por The Wrestler, famoso internacionalmente por Cisne Negro (2010), assina como produtor um thriller social ambientado nas favelas do RJ: Pacificado, de Paxton Winters, vencedor da Concha de Ouro em San Sebastián. Nesta quarta-feira, a longa-metragem vai ser exibida na cidade onde nasceu – pelas mãos do realizador Paxton Winters, um norte-americano radicado no Brasil – , às 21h30, no Estação Net Botafogo.
“Quando estive na Turquia para exibir Requiem for a Dream, encontrei um loiro americano, de olhos azuis, que mais parecia um jogador de futebol e que falava turco perfeitamente, tendo um conhecimento singular da vida na Turquia. Ficamos amigos e incuti nele a ideia de que deveríamos, um dia, fazer algo juntos. Quando ele veio para o Brasil e apresentou-me a história de ‘Pacificado’, que construiu com os moradores do Morro dos Prazeres, identifiquei um caminho. Havia um filme de samurai moderno ali“, disse Aronofsky ao C7nema, em San Sebastián, de onde a produção saiu ainda com as láureas de melhor ator (Bukassa Kagengele) e fotografia (Laura Merians Gonçalves). “A minha interferência foi mais no caminho da leitura, da troca de ideias. Sabia da força do olhar de Paxton“!.
Laureado pelo júri popular da Mostra de São Paulo, Pacificado assume como seu protagonista o ator Bukassa Kabengele. Ele vive Jaca, um ex-traficante que regressa à favela que liderou no passado, após 14 anos de cárcere, disposto a se reinventar. Na volta, precisa aprender a ser pai de uma filha que nunca conheceu, a adolescente Tati (Cassia Nascimento), e testemunha a queda de sua ex (Débora Nascimento) nas garras do vício.
“Este filme devolve o protagonismo a pessoas que foram esquecidas, que são diariamente invisibilizadas no país onde eu vivo. O Brasil é um dos territórios de maior população negra entre os países que estão fora da África. E, apesar dessa maioria, ainda somos excluídos“, disse Kabengele ao C7nema. “A beleza deste filme está no gesto de Paxton em subir uma favela sem colocar seu foco na violência, apostando mais nas relações de afeto. Ele deu protagonismo a mulheres e homens negros“.
Nesta terça começa a seleção competitiva de ficções da Première Brasil do Festival do Rio 2019, com Macabro, de Marcos Prado, abrindo a peleja pelo troféu Redentor. O evento vai até 19 de dezembro, quando acontece a cerimónia de premiação.

