Harvey Keitel: as memórias de um “Polícia Sem Lei” em Marraquexe

(Fotos: Divulgação)

O Festival de Marraquexe decorre de 29 de novembro a 7 dezembro

Harvey Keitel protagonizou um dos momentos de maior emoção do 18.º Festival de Marraquexe, no qual participa para promover O Irlandês (The Irishman), às vésperas das indicações ao Globo de Ouro. Aos 80 anos, o ator de origem nova-iorquina falou  dos bastidores dos grandes sucessos e cults do qual participou, com destaque para um episódio que, por pouco, não abortou aquela que é considerada a sua melhor atuação: Polícia sem lei (1992).

Eu não conhecia o Abel Ferrara naquela época, mas andava louco para ter um papel de protagonista num bom filme, sem que aparecesse nada bom. Aí, chega-me um guião fininho, com letras garrafais, para ocupar espaço. Eu lembro-me de olhar para aquilo e estranhar. Estranhei mais ainda o que eu li e atirei o roteiro no lixo, sem dó. Mas aí pensei que a chance de ter um papel principal era mínima e resolvi tirar o script dele da lixeira para entender o que aquele homem queria com aquelas letras gigantes, naquelas poucas páginas. Na mesma época, chegou-me o roteiro de O Piano, de Jane Campion, cuja escrita era um primor, além do quê, as filmagens com ela foram um conto de fadas, com a Holly Hunter a tocar os acordes das músicas. Era lindo. Então, porque seguir com Ferrara? Fiquei a questionar isso até ler o papel da freira, a personagem que contracenaria comigo. Ali, tive que dizer sim e foi um trabalho de uma catarse“, contou Keitel, chorando múltiplas vezes, enquanto bebericava um copinho de sumo esverdeado. “Desculpem, é o meu pequeno almoço“.


Harvey Keitel em Marrocos | ©FFIFM2019

Escolhido para viver o mafioso Angelo Bruno em O Irlandês, numa discreta participação, o ator brincou com a plateia citando um colega de elenco do novo filme de Scorsese. “Se alguém deixar esta sala, tenham cuidado que o Joe Pesci está ali ao fundo, vigiando vocês“, ironizou, aumentando as especulações locais em Marrocos de que De Niro e o próprio Scorsese virão a Marraquexe esta noite, para a cerimónia de gala da exibição da longa-metragem de 202 minutos. “Conheci o Marty num teste em Quem bate à minha porta? (1967), quando tinha saído há pouco dos fuzileiros navais. Lembro-me de ir para o teste e de um sujeito mandar-me entrar num corredor escuro. Estranhei aquilo e vi uma luz, ao fundo, onde havia um tipo sentado que se dirigiu a mim de forma grosseira. Discuti brevemente com ele, até que Marty apareceu e disse: ‘Harvey, isso aqui já é o seu teste’. Eu retorqui: ‘Marty, quando quiseres um improviso assim, avisa os atores’. Anos depois, fomos fazer Taxi Driver e ele queria que eu fizesse o chefe da campanha eleitoral para o senado, o papel do Albert Brooks. Mas eu li o roteiro e a figura do proxeneta da prostituta vivida pela Jodie Foster chamou-me a atenção. Era um tipo que me fazia lembrar dos proxenetas com quem eu esbarrava quando morava em Hell’s Kitchen. Fui até ao Marty e disse: ‘Quero fazer o proxeneta’. A resposta dele: ‘Mas essa personagem só tem cinco falas’. E eu: ‘Tudo bem’. Queria buscar a humanidade daquela figura. Foi o mesmo quando fiz com Judas em A Última Tentação de Cristo. Era uma questão de emprestar carne e alma àquela personagem bíblica tão repudiada. Queria que a dor de Judas fosse uma dor real“, lembrou Keitel, emocionando o veterano diretor francês Bertrand Tavernier, que o dirigiu em A morte em directo (1980) e estava na plateia, na primeira fala, a cada fala.


Scorsese, Keitel e De Niro nas filmagens de Taxi Driver

Prestes a voltar às telas em Fátima, do realizador romano Marco Pontecorvo, sobre a aparição de Nossa Senhora em Portugal, em 1917, ele não segurou o pranto quando  imagens de Romy Schneider, ao seu lado, no filme de culto de Tavernier foram exibidas. “O Bertrand mostrou-me a precisão dos realizadores europeus”, contou Keitel, que divertiu a plateia ao relembrar uma entrevista que deu em Cannes. “Na época de O Piano, a imprensa disse que aquele era o meu primeiro papel romântico, o primeiro herói romântico da minha carreira. Nunca me associaram muito à ideia de desejo, embora eu fizesse um certo sucesso com as meninas do Brooklyn, de onde venho. Mas aí eu respondi: ‘Desculpem, esta não é a primeira vez’. Os jornalistas olharam cheios de curiosidade e questionaram: ‘Onde é que foi o interesse romântico de uma personagem?’. E eu cravei: ‘Nas aulas de teatro’. Filmar com Jane Campion foi incrível por muitas razões e ainda fizemos Fumo Sagrado juntos“, lembra Keitel, a elogiar a cineasta. “Se a Jane mirar a sua câmara sobre uma cadeira qualquer, esse móvel vai parecer sexy“.


Keitel e Pesci em O Irlandês

Esta noite, Portugal vai marcar o Festival de Marraquexe, com uma sessão hors-concours do musical de João Nicolau, Technoboss, que arrancou gargalhadas em Locarno, em competição. Vem lá desse mesmo festival suíço outra atração desta segunda, nos ecrãs marroquinos: Magari, de Ginevra Elkann. Na trama, a pequena Alma precisa reinventar a sua vida após a separação dos seus pais.

Sábado, o Festival de Marraquexe encerra os seus trabalhos com a entrega da Estrela de Ouro. Até o momento, o filme australiano Babyteeth, da estreante Shannon Murphy, sobre uma adolescente com cancro que se apaixona por um jovem traficante, é o favorito a laúreas. Mas o brasileiro A Febre, que vem papando prémios por onde passa, vem aí, para desafiar os 13 demais competidores.

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