O Festival de Marraquexe decorre de 29 de novembro a 7 dezembro

Neste domingo, 1 dezembro, a produção mais comentada em Marrocos foi a badalada produção australiana Babyteeth, da diretora Shannon Murphy, exibido na Mostra de SP (de onde saiu laureada com o prémio de melhor ficção) sob o título Dente de leitebr. Estreia de Shannon (uma prolífica diretora de teatro e de TV, crescida em Hong Kong) na realização de longas, a produção está na competição oficial, que tem o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho (de Bacurau) como jurado. Indicada ao Leão de Ouro, Shannon saiu de Veneza coroada de elogios, carregando para casa o Troféu Marcello Mastroianni de melhor ator em estreia, confiado a Toby Wallace. No seu enredo, Milla, uma adolescente com um tumor terminal, vivida pela excecional Eliza Scanlen, apaixona-se por Moses (papel de Toby), um pequeno traficante de drogas. Com o amor, a jovem retoma a vontade de viver, mas, aos poucos, vai deixando de lado os valores tradicionais e a moralidade. Ela começa a mostrar a todos ao seu redor —os pais, Moses, uma vizinha que está grávida— como é viver sem ter nada a perder. O novo comportamento de Milla poderia ser um desastre para a família. No entanto, em vez disso, ela dá a todos uma lição de como ver graça no caos da vida.
“Tenho uma predileção natural, quase espontânea, pelo humor, o que me leva a criar certas situações de comicidade num contexto triste, de uma menina que está a morrer de cancro e se vê numa bolha, num casulo de proteção materna e paterna“, disse Shannon ao C7nema numa descontraída entrevista. “É um ambiente mais suburbano, de casas sofisticadas que parecem decadentes por dentro“.
Entre os filmes de África aqui exibidos, um drama da Tunísia foi o maior destaque, numa oportuna boleia da discussão mundial contra o sexismo e o feminicídio, com direito a sessão de gala, na presença da nata local. Noura’s dream, de Hinde Boujemaa, virou um ímã de elogios por aqui. Exibida em sete mostras internacionais de peso (como Toronto, BFI London e Turim), a partir do Festival de San Sebastián, em Espanha, em setembro, esta produção de €500 mil é o exercício mais potente de investigação das mazelas sociais do cotidiano exibido pelo evento marroquino, até agora. Com uma estrada bem pavimentada de raciocínio crítico pelas veredas do documentário, a cineasta tunisina embarca na ficção denunciando a microfísica do machismo no seu país a partir do drama da lavadeira Noura, vivida pela (excecional) atriz e advogada Hend Sabri.

©FFIFM2019
A atuação dela foi saudada com aplausos incandescentes. A encrenca da sua personagem: oprimida por uma rotina de trabalho selvagem, lavando roupas num hospital, ela sonha se divorciar do (violento) presidiário com quem teve três filhos, a fim de se casar com o mecânico Lassaad (Hakim Boumsaoudi) e se livrar de uma acusação de adultério. No seu país, o adultério é crime, sobretudo quando se é mulher. Mas o tal “sonho” que dá título à longa-metragem cai por terra quando seu marido meliante (Lotfi Abdelli) sai da cadeia antes do prazo, desejando retomar a sua esposa para si. A queda é maior quando ela começa a ver que Lassaad também não tem o mais generoso dos temperamentos. A câmara do fotógrafo Martin Rit (realizador de Norma Rae) ajuda Hinde a construir sua narrativa com uma secura documental que só dá tréguas à fabulação quando fita o céu azul, de onde um sapato cai na cabeça do filho de Noura, indicando uma moira trágica para esta combatente das opressões de género.
http://www.youtube.com/watch?v=nD1lLy7pSQY
Na noite de domingo, Marrocos presencia ainda um filme de super-heróis com o selo de Bollywood: o marvete Krrish 3. Nele, um super-herói indiano encara criaturas mutantes.
Nesta segunda-feira, Harvey Keitel vai ao Palais Des Congrès para falar de O Irlandês, da sua parceria com Martin Scorsese e do que foi o cinema independente americano nos anos 1970.
Marraquexe encerra o seu festival no próximo sábado, com a entrega de prémios.

