De boleia na comemoração dos 30 anos da distribuidora que redefiniu (na toada da inclusão) todas as cartilhas de lançamento de filmes de autor no Brasil, a Imovision, Juliette Binoche e o realizador Cédric Kahn vão passar pelo Rio de Janeiro, nesta sexta-feira, para um parabéns a você no suntuoso recanto de cinefilia que o Reserva Cultural virou.
O cinema fica na cidade ao lado, Niterói, ligada ao RJ por uma ponte ou por barcas: mas para quem é carioca, o espaço é… logo ali (jargão brasileiro para aquilo que mora no nosso coração). Juliette vem acompanhar a projeção de Trois couleurs: Bleu (A Liberdade é Azulbr (1993), de Krzysztof Kieslowski. Kahn traz na mala seu mais recente filme: Fête de famille, com Emmanuelle Bercot. E ainda vai ter a exibição de Fim de festa, do pernambucano Hilton Lacerda (de Tatuagem).
O anfitrião dessa comemoração é o francês Jean Thomas Bernardini [na imagem abaixo], encarado por cineastas do Brasil como um super-herói da resistência na luta por espaço em circuito para filmes de baixo orçamento e alta ambição estética. Ele lançou longas-metragens de prestígio de realizadores como Lúcia Murat (Praça Paris), Claudio Assis (Baixio das Bestas) e Flávia Castro (Deslembro), em paralelo a seu empenho em nome da distribuição de cults franceses, indo de Alain Resnais (Vous n’Avez Encore Rien Vu) e Godard (Le livre d’image) a marcas criativas mais jovens, como Cédric Klapisch (Ce qui nous lie). Mestres como Agnès Varda e Hirokazu Koreeda também figuram no catálogo de Bernadini, que, na entrevista a seguir, ao C7nema, faz um panorama das agruras e glórias de se lançar um filme na América do Sul.

Quais são as maiores adversidade para um distribuidor de filmes independentes no Brasil?
A escassez de salas. Quanto mais se constroem multiplexes no Brasil, para abrigar os blockbusters, menos espaço fica para o cinema independente. Temos, muitas vezes, uma média de 15 filmes sendo lançados por semana e não há espaço para isso. Tenho que lançar os filmes às vezes em apenas dois horários por dia, às 14h e às 22h, o que prejudica a sua carreira, mas é o que temos. Às vezes, muitos realizadores apelam para que eu lance seus filmes mesmo desta forma, colocando as suas longas-metragens numa sessão diária pelo menos, mas é difícil para construir o diálogo com as plateias. Isso faz com que eu a sinta a mesma insegurança que sentia quando comecei, apesar de já ter 30 anos de mercado. Mas, apesar disso, eu não perdi o critério, a busca por filmes relevantes. É mais ou menos como se passa com os restaurantes. Não adianta ter comida boa se você não é badalado. Tento trazer filmes que cheguem de fora badalados, mas que sejam bons. Se você vai a um restaurante badalado e a comida é ruim, você não volta. Quero que as pessoas voltem, vejam os filmes. O trabalho que eu faço no Reserva Cultural, em Niterói e em São Paulo, tem essa vertente: como aquele espaço está acostumado a trazer filmes de prestígio… e bons… muita gente aparece lá sem ter a noção do que está passando. Mas vai por confiança que fizemos uma boa curadoria. Isso vale para 70% do meu público lá.
Mas o interesse do público em relação aos filmes de prestígio mudou nessas três décadas?
Quando eu comecei, O Mahabharata, de Peter Brook, ficou um ano inteiro em cartaz. Antes, você lançava um filme da Islândia e as pessoas corriam para ver por curiosidade para conhecer aquela filmografia. Hoje, não. Nem é mais aquela coisa do boca a boca… às vezes, não há tempo para isso: se o filme não atingir um mínimo de público no seu primeiro fim de semana, ele sai de cartaz. E tem a influência da crítica também: sendo negativo, um texto pode destruir a carreira de um filme em circuito. Quando eu comecei a gente só tinha um punhado de salas de circuito de arte, a maioria já envelhecida ou bem pequena, e existiam cineclubes. Apareceram outras salas, mas ainda é um número pequeno. E o público às vezes não quer sair de casa para uma sala de rua, sem estacionamento. É uma luta constante.

Qual foi o filme de maior surpresa do ano, entre seus lançamentos ? E que drealizadores-autores mais e melhor se impuseram como sucesso no mercado brasileiro?
A especialidade da Imovision sempre foi identificar nichos e fazê-los esgarçar, ampliando o interesse de produções que se identifiquem com diferentes grupos. A boa surpresa deste ano veio de um filme de Israel que parecia ser de nicho: “O Confeiteirobr” (“The Cakemaker“, de Ofir Raul Graizer), que agradou bastante. Entre os diretores que têm me surpreendido pelo diálogo com os espectadores… Bem, filme a filme, o Robert Guédiguian vem me trazendo gratas surpresas. Cada projeto dele cativa uma faixa de público e fica semanas em cartaz. Não é um Almodóvar, nesse âmbito autoral do mercado exibidor, mas ele atingiu uma faixa de adesão entre as plateias muito alta, com o seu método particular de contar histórias adultas, com a mulher e um mesmo grupo de atores amigos, trabalhando como se fosse uma trupe de teatro.
Quais são as próximas apostas com cheiro de sala cheia?
Essa é sempre uma questão difícil. Tenho o novo do Elia Suleiman, “O Paraíso deve ser aquibr” (It Must Be Heaven), que foi premiado em Cannes. É uma narrativa diferente do que os filmes estrangeiros vêm trazendo e, se colar com as plateias, pode virar um sucesso. E tem esse Fim de Festa, do Hilton Lacerda, no qual eu faço uma participação em cena. Não sou ator, de modo algum, mas…
Como começou essa sua história de amor com o Brasil, que incluiu, entre muitos feitos, o lançamento dos filmes do movimento Dogma, da Escandinávia, em solo brasileiro?
Lancei todo o Dogma e trouxe para o Brasil “O balão brancobr“, de Jafar Panahi, que, com apenas quatro cópias, contabilizou 180 mil pagantes. As cópias já estavam arranhadas, com fotogramas faltando, mas as pessoas pediam o filme, queriam exibi-lo. Eu já tinha uma relação com o Brasil, com uma confecção de roupas, quando, em 1989, fundei a Imovison. Fui ajudar um amigo de França que queria finalizar um filme, apoiei com uma pequena participação, ficando com 1%, 2% da longa-metragem. Depois, esse amigo disse: “Vamos lançar o nosso filme no Brasil?”. Eu estranhei o “nosso”, pois a minha percentagem era pequena, mas ajudei… e deu retorno o lançamento. Aí, um pessoal francês perguntou se eu não queria lançar os seus filmes em território brasileiro. Tive que abrir a distribuidora para isso. Abrimos em 14 de julho de 1989, na data da Revolução Francesa. Mas, quando ela começou, a ideia era lançar apenas três ou quatro filmes por ano… e apenas os filmes de que eu gostasse muito. Acabei lançando cerca de 500 títulos. Mas nunca abri mão do critério de qualidade.

