Arrancou na noite passada, 8 de novembro, na Cinemateca, o ciclo Sine, Cinema das Filipinas, evento com o apoio da embaixada do país, que marcou presença na abertura através de vários elementos do corpo diplomático, entre eles a embaixadora, Celia Anna M. Feria.

Visivelmente emocionada e repleta de palavras doces para a Cinemateca Portuguesa, e em particular para José Manuel Costa, Feria falou de um “sonho concretizado” ao iniciar este ciclo num local que fica imediatamente do outro lado da rua onde a sua embaixada se encontra.
O ciclo Sine, Cinema das Filipinas vai apresentar durante o mês de novembro cerca de 15 obras de cineastas do país, estando presentes na programação trabalhos das chamadas três eras de ouro do cinema local. A primeira era, que ocorreu logo após o final da Segunda Guerra Mundial até meados dos anos 50 (serão exibidos filmes de Lou Salvador e Gérardo de Leon); uma segunda era de 1971 a 1983 (com trabalhos de Lino Brocka e e Kidlat Tahimik, entre outros, a serem exibidos): e uma terceira fase, já depois dos anos 2000 com cineastas como Brillante Mendoza, Pepe Diokno e Lav Diaz associados aos filmes em exposição.
Kidlat Tahmik está mesmo em Lisboa e marcou presença nesta inauguração. O realizador vai estar igualmente na conferência sobre o cinema filipino na próxima terça-feira, e apresentar nesse mesmo dia o seu filme Pesadelo Perfumado.
Uma abertura com a Independencia de Raya Martin

Foi com o filme de 2009 Independencia que se deu o pontapé de saída do ciclo. A obra, a preto e branco com rasgos de cor no seu final, acompanha a história de um jovem e da sua mãe que se escondem na selva, devido ao perigo iminente de uma invasão. Neste caso, é a invasão americana, um pano de fundo para um cineasta que já em Breve Filme sobre o Índio Nacional, o seu projeto anterior, mostrava um outro colonizador: a Espanha. Está ainda incompleta a trilogia que Martin anunciou inicialmente e que deveria gerar um terceiro filme com a colonização japonesa em destaque.
Mas além de evocar os colonizadores em dois filmes, Martin procurou também evocar a história do cinema da época: “Nas Filipinas, a história do cinema é paralela à da situação colonial. As origens do cinema filipino vêm dos mestres espanhóis. Pelo contrário, a estrutura mais influente, que ainda hoje ressoa, é a de Hollywood. Indio Nacional e Independencia são sobre a história do nosso país e sobre a história do cinema no país. Formalmente, Independencia imita a estética dos filmes de estúdio durante a ocupação americana, enquanto a história concentra-se na resistência durante o mesmo período. A ideia era expor o substrato de Hollywood e subvertê-lo para redefinir a nossa luta. O noticiário falso no meio do filme [com uma bobine que ecoa] é um bom exemplo: é baseado na história verdadeira de um americano e na morte de um miúdo local. Esse segmento é semelhante ao intervalo que tínhamos nas salas de cinema da época.“, explicou Martin na época da estreia da obra – que marcou presença na Un Certain Regard em Cannes.

Para além das claras referências aos estúdios de filmagens com backgrounds pintados da Hollywood dos tempos da ocupação, que colonizaram igualmente os ecrãs locais, neste Independência encontramos outros traços mais recentes, com o nome de Apichatpong Weerasethakul (Tropical Malady) a ser flagrante (a fabulização do real, materializada na estética e história). Ainda assim, o filme é totalmente linear na narrativa, bem ao gosto nacional. “Acho que isso é muito filipino (…) as nossas gentes gostam de contar histórias e são muito bons nisso. A psique nacional é fundada numa estrutura narrativa. Isso pode ser visto na nossa tradição cinematográfica”, disse Martin em 2009.

