John Waters: entre Ingmar Bergman e os filmes underground

(Fotos: Divulgação)

As minhas influências vieram dos filmes de arte de Ingmar Bergman – além disso, ele foi o primeiro diretor a mostrar vómito no cinema. Ele é o Rei do Vómito – e depois os filmes underground. Com isto, tentei juntar todas essas influências para fazer filmes exploitation para os cinemas de arte“.

Estas palavras foram proferidas por John Waters ontem (7/11) na 60.ª edição do Festival de Cinema de Salónica, a decorrer na Grécia desde o passado dia 30 de outubro.

Convidado para uma masterclass, “O Papa do Cinema Trash“, como William Burroughs o definiu, falou ainda de política, afirmando que o mundo está repleto de “fascistas” com maus penteados, afirmando que Donald Trump “não quer saber das artes” e que cada vez mais os cinemas independentes nos EUA estão cheios de “gente velha“. Admitindo que odeia os centros comerciais e as salas de cinema neles, Waters falou dos vários insucessos que teve no box-office, mas relembrou que depois de ter feito Hairspray (Laca), todos os estúdios norte-americanos queriam trabalhar com ele.

Falando da sua musa, Divine, Waters referiu-se a ela como a “a melhor atriz do mundo” e alguém que foi muito vilanizada no liceu: “O liceu é brutal para toda a gente, exceto para as rainhas do baile e jogadores de futebol. (…) Agora é muito mais fácil para os gays. Eu nunca quis ser como toda a gente, então não foi tão difícil para mim. Hoje a maioria dos bares gays nos Estados Unidos estão a fechar e isso é um progresso“.

Sem projetos cinematográficos na agenda e “em paz consigo mesmo” depois de fazer cerca de 70 filmes”, o cineasta vai continuar a escrever livros, embora admita que podia trabalhar em televisão e que até gosta do meio. Finalmente, e após ser questionado se é divertido fazer um filme, Waters afirmou categoricamente que não: “Fazer filmes nunca é divertido. Olho para trás com orgulho e tudo, mas se foi divertido? Diversão é quando não estou a trabalhar, de Martini na mão, mas estar vinte e duas horas a filmar à chuva e num frio congelante com uma câmara na mão, isso não é divertido. Mas faz parte. E é assim que você aprende a fazer filmes. O que mais eu poderia fazer na vida? Não consigo pensar em nenhum outro trabalho que pudesse fazer, exceto talvez tornar-me psiquiatra ou advogado de defesa criminal

Nascido em Baltimore e com mais de cinquenta anos de carreira, a primeira obra de Waters foi Hag in a Black Leather Jacket em 1964, uma curta metragem a preto e branco. Conhecido por filmes como Mondo Trasho (1969), Pink Flamingos (1974), Polyester (1981), Laca (1984), Quem Não Chora Não… Ama (1990), e Cecil B. Demente (2000), Waters tem marcas muito pessoais no seu trabalho, como todos os seus filmes se ambientarem em Baltimore, serem particulamente satíricos e transgressivos, contarem a maioria das vezes com Patricia Hearst e Mink Steale no elenco, e as suas personagens possuirem nomes aliterados (Dawn Davenport, Francine Fishpaw, Tracy Turnblad, Penny Pingleton, Sylvia Stickles).

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