Dunia: o grito mais audível no doclisboa tem quase 15 anos

(Fotos: Divulgação)

Uma mulher sobe as escadas de um prédio. Um violento grito infantil ecoa pelo espaço. A mulher desce as escadas a correr, entra por uma porta e tenta salvar uma criança. Já é tarde, pois a excisão do clitóris de uma menina de 11 anos estava concluída.

Esta cena é efetivamente a mais marcante de Dunia, filme de 2005 da falecida cineasta franco-libanesa Jocelyne Saab – em retrospetiva no doclisboa – que se debruça sobre o desejo, o amor e a arte em tempos de crescimento do fundamentalismo islâmico no Egipto. Dunia, que significa “mundo” em árabe, é o nome também da nossa protagonista, também ela excisada em pequena e também ela perseguida pelo calor religioso da época por dançar, ser livre e ser filha de uma famosa dançarina do ventre, uma arte mal vista e depravada, como quase todas as manifestações culturais nestes anos de um Egipto em transição.

Saab, uma fã do cinema egípcio dos anos 40 e 50, em particular dos romances, comédias e musicais que apresentaram bailarinas e estrelas ao mundo como Tahia Carioca, Naima Akef e Samia Gamal – trio que tinha particular destaque na curta da cineasta Belly Dancers – constrói neste seu Dunia um filme de cariz humanitário, político e feminista, mas paralelamente conta-nos uma história de amor, não apenas por alguém, mas à arte como refúgio pessoal e a derradeira forma de expressar a liberdade de pensamento.

Vamos levar xerazade a tribunal?“, pergunta um professor e escritor intelectual quando confrontado com a proibição das 1001 noites no Egipto por “indecência e depravação”, isto antes de ser agredido e ficar cego pelas suas ideias. É na interação com esse escritor, com outro homem que está apaixonado por si e com um professor de dança que o mundo de Dunia se apresenta, o de uma mulher em busca do desejo na liberdade de escolha e na arte (Dança, poesia), já que está impedida para sempre – devido à excisão – de ter o prazer carnal.

A minha cabeça é o meu reino“, diz ela a certa altura, exprimindo que ali está a única coisa que nenhum homem ou sociedade poderá alguma vez ter.

Polémica e censura

Apesar de filmar todas as sequências com ponderação, suavidade e beleza, o tema do filme e algumas sequências (como a da excisão e um ato de amor) foram fortemente atacados no Egipto, logo em 2005 quando estreou no Festival do Cairo. Um ano depois, sob a alegada desculpa que não pagara as taxas sindicais de exibição, Dunia foi proibido de chegar as salas.

É um crime contra a humanidade [a censura], filmei a cena da excisão com delicadeza mas penso que os egípcios não suportam ver-se ao espelho“, disse a cineasta na época, a qual  – antes disso – já vira os seus dois protagonistas, Hanan Turk e Mohamed Munir, distanciaram-se do projeto.

Ora esta “sociedade doente de frustração” – nas suas palavras – levou-a enormes problemas financeiros, tendo mesmo – depois deste desaire – de pedir apoio aos serviços sociais em França, isto antes de regressar em 2009 com aquele que viria a ser o seu último filme: What’s Going On?

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