Do Líbano ao Chile, passando por Hong Kong, Joker tornou-se um novo símbolo de protesto

A História não é nova, mas tem um novo rosto. Se a máscara de Guy Fawkes, presente no filme V de Vingança, liderou as inspirações cinematográficas (embora já existisse na BD) para protestos entre 2005 a 2018, com particular presença nas “marcas” Anonymous e Occupy, em 2019 um novo rosto de “rebeldia” surgiu: Joker, popularizado pelo sucesso [de crítica a público] do novo filme de Todd Phillips.
Sim, pelo meio tivemos algumas brincadeiras, partidas e apanhados massificados (vulgo pranks) com máscaras arrancadas da cultura do entretenimento, com referências a Mr. Robot, IT ou La Casa De Papel, mas nada ao nível do que se tem visto nas últimas semanas em territórios tão distantes como Líbano, Chile e Hong Kong.
No país do Médio Oriente, por exemplo, manifestantes foram vistos e fotografados a usar a máscara de Joker, tal como de Guy Fawkes. Centenas de milhares protestavam contra o anúncio do governo a 17 de outubro da criação de um “imposto Whatsapp” (já cancelado), que iria obrigar os utilizadores da aplicação a pagarem uma taxa diária por a utilizarem. No Chile, os manifestantes protestam contra o aumento dos preços dos bilhetes de transporte (do metro), naqueles que são os maiores protestos desde o final da ditadura e que já provocaram vários mortos (18, pelo menos).
Em Hong Kong, há meses que os manifestantes se reúnem para denunciar o declínio nas liberdades, incluindo a proibição no início de outubro de esconder o rosto durante as manifestações, tendo Joker virado também uma forma de combaterem essa mesma lei.

E é possível que também na Catalunha e no Equador existam também um ou outro caso. Num diálogo com o Libération, Mathilde Larrère, historiadora das revoluções, explicou: “Como as revoluções são feitas pelas classes trabalhadoras, elas usam elementos da sua cultura“. Particulamente, e com o Joker, as pessoas sentem que estão fora das decisões, do sistema e “ninguém liga ao que dizem“.
A verdade é que a presença de um elemento da cultura pop acentuou a cobertura mediática internacional sobre problemas locais. O caso libanês é flagrante. Haveriam sequer notícias sobre as manifestações se a máscara de Joker não fosse tema de fait-divers para a imprensa mundial? Certamente que não e por isso a escolha desse novo rosto para o protesto é um sucesso.

